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quarta-feira, 29 de abril de 2020

Não nascemos para ser de todos. Nascemos para ser de alguns

quarta-feira, abril 29, 2020 4 Comments



Somos todos diferentes. Todos temos as nossas cores, tamanhos e feitios. Temos coisas que adoramos e outras que não suportamos. Todos somos únicos e é esse o encanto que cada um de nós tem dentro de si: não haver mais ninguém igual.

É quando nos apercebemos desta realidade que deixamos de nos importar com quem gosta ou não gosta de nós. Nós somos assim, ponto. E por todos sermos diferentes, vão sempre existir pessoas que não gostam de nós. Ou porque não usamos o estilo de roupa com que elas se identificam ou porque temos características na nossa personalidade que não vão ao encontro do que essas pessoas procuram. Faz parte. E ainda bem que assim é.

O que não faz sentido, - e grande parte das vezes fazemos -, é continuarmos a insistir em darmo-nos a pessoas que não gostamos. Pediram-me que refletisse sobre isso. Sobre o porquê de nos darmos com pessoas com as quais não nos identificamos. Depois de muito puxar pela minha cabecinha, cheguei à conclusão de que todos temos as nossas razões. Podemos não simpatizar com uma pessoa e darmo-nos com ela simplesmente porque ela é importante para alguém que amamos. 

Noutros casos, podemos apenas ter uma personalidade que não nos deixa soltar daqueles que não queremos ter perto.
No entanto, creio que há um denominador comum relativamente a este assunto: nós não encaramos como normal o facto de não gostarmos todos uns dos outros. Como se não gostar de alguém fosse uma coisa completamente horrível quando não é. Faz tão parte da vida como o céu ser azul e existirem estrelas.

No fundo, nós somos pequenas peças e toda a gente sabe que as peças não se encaixam em qualquer sítio. Cada peça tem um lugar que lhe pertence. Assim, quando perdemos tempo a querer pertencer a todo o lado, podemos perder a hipótese de estar junto daqueles onde, realmente, pertencemos. É uma questão de aceitação. Não nascemos para ser de todos. Nascemos para ser de alguns.

Publicado em: Repórter Sombra.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O caminho que nos leva ao destino

quinta-feira, abril 23, 2020 1 Comments



Lutar. Desde cedo, somos ensinados a ter força. Ensinam-nos a levantar depois de darmos uma queda, a caminhar para alcançarmos o destino que pretendemos e a aprender para termos capacidades intelectuais para conhecermos e, acima de tudo, conhecermo-nos. No fundo, crescemos com a noção de que o futuro e o que ambicionamos depende apenas de nós e da nossa força interior.

O que, muitas vezes, não nos dizem é que nem sempre é fácil. Não é tão fácil como aprender a caminhar, a escrever, a ler ou a decorar a nossa morada completa. Lutar por aquilo que nos faz feliz é, provavelmente, das coisas mais difíceis da vida. É daquelas coisas que ninguém nos ensina. Aprendemos com as vivências, com os erros e, sobretudo, com o passado. E no meio deste “cai e levanta”, ficamos cansados. Mais cansados do que se tivessemos corrido uma maratona. Não se resume apenas a um cansaço físico. É uma exaustão mental que, automaticamente, nos leva a duvidar de nós mesmos. “Será que?”.

A dúvida é pior que o negativo. Martiriza. Corrói. Leva-nos, frequentemente, a desistir por não sabermos lidar com a incerteza. Este é um ciclo que nos persegue a vida toda. Quando começamos uma nova etapa, quando aprendemos coisas novas, quando descobrimos que queremos isto e não aquilo... É uma constante procura por algo que nunca chega e que aparenta nunca querer chegar. Até ao dia em que deixamos de nos importar. Desistimos porque desistir também é ter coragem. É ter a força de abandonar o que nos está a deixar para trás quando deveria fazermos caminhar em frente.

O que fica quando deixamos de nos preocupar com o que, anteriormente, costumava ser o nosso objetivo para acordarmos todas as manhãs? Há quem diga que ficam dúvidas, receios, frustrações... Eu acredito que ficam as certezas. As certezas de que quem não desiste algumas vezes, nunca vai encontrar o seu caminho. Alcançar o futuro que ambicionamos é como viajar numa estrada: temos de nos perder algumas vezes até que, finalmente, encontramos o melhor caminho para chegarmos ao nosso destino.

Publicado em Repórter Sombra.

terça-feira, 5 de março de 2019

Como aprender inglês rápido

terça-feira, março 05, 2019 5 Comments

D.R.

Aprender inglês nunca foi tão importante, disso não há dúvidas. Seja no trabalho ou na nossa vida pessoal, saber falar bem inglês pode salvar-nos em imensas situações. Mas para quem não prestou muita atenção às aulas de inglês no secundário (ou não tem jeito para línguas), navegar neste mundo cheio de mensagens em “estrangeiro” não é assim tão simples. Então, como é que podemos finalmente aprender inglês rápido?
A Cristina Ferreira lançou um livro intitulado Falar “(Inglês) é Fácil” que se vê em todas as livrarias e até nas estações dos correios. A apresentadora disse que este é “o” manual para aprender inglês sem receios e começar a falar rápido. Mas na verdade o segredo da Cristina é ter trabalhado com um professor privado durante vários meses antes de escrever o livro.
Essa, acho eu, é a chave para aprender qualquer língua: praticar, praticar, praticar. Não conheço ninguém que tenha ido viver para fora e não tenha voltado a falar línguas muito melhor do que quando foi. E porquê? Por causa do treino diário, de se obrigarem a falar noutras línguas porque ninguém entende Português.
Falar sem vergonha é a peça-chave. Mas não chega, é preciso alguém que nos possa corrigir para não perpetuar os erros - e é aí que entra o professor/ tutor. Felizmente, é cada vez mais fácil encontrar professores de línguas disponíveis para dar explicações particulares em casa. Além das aulas online, que são sempre uma opção, podem procurar explicadores de Inglês em Lisboa e explicadores de Inglês no Porto aqui.
Depois, não se esqueçam é de usar a língua mesmo fora das aulas! Vejam filmes e séries com legendas em inglês (mais fácil, enquanto não se habituam a ouvir) e, se conseguirem, mesmo sem legendas! Tentem ler artigos em inglês na net, ouvir música, treinar com turistas… A partir do momento em que o inglês fizer parte do vosso dia a dia, a batalha está ganha! 




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O dia em que a amizade deixa de ser prioridade

sexta-feira, fevereiro 15, 2019 2 Comments


Já perdi a conta ao número de vezes que ouvi a frase “andas desaparecida”. Já todos a ouvimos. Já todos a dissemos também. E, com o tempo, foi-se tornando numa das frases que mais me custa ouvir.
Eu não ando desaparecida. Vivo no mesmo sítio há 5 anos, tenho o mesmo número de telemóvel desde os 12 anos, tenho redes sociais e vou a casa dos meus pais todos os fins de semana. Portanto, não é muito difícil encontrar-me. O que é difícil é ver na amizade uma prioridade. Para os outros, só “desaparecemos” porque deixamos de ser uma prioridade. Uma das coisas que os meus pais me diziam quando eu era pequena é que, com o passar do tempo, o meu número de amigos ia diminuir. E isso só tendia a piorar até ficarem só um ou dois. Conforme fui crescendo fui percebendo que eles tinham razão. A lista foi ficando mais curtinha, mas sempre melhor. Porque só fica quem tem de ficar. A forma como nos vamos afastando daqueles que, hoje, estão perto é sempre a mesma: a amizade está lá mas, lentamente, vamos ficando no final da lista. Há outras prioridades que vêm antes de nós. O emprego, o descanso, as relações,... E depois ouvimos a célebre frase “não tenho tempo para nada”. Mas há sempre tempo quando se quer ter tempo. Com o passar dos anos, deixei de procurar quem dizia “não ter tempo”. Meti na cabeça que essas pessoas sabiam onde me encontrar e que, “quando tivessem tempo”, o podiam fazer. Claro que não o fizeram. Porque o tempo é só uma desculpa. Uma desculpa para não estar. Na vida, sigo a máxima “fazer o longe ficar perto”. Isso exige tempo. Tempo para ligar. Tempo para perguntar “estás bem?”. Tempo para ouvir. Tempo para conversar. E esse tempo existe sempre. Porque um amigo é sempre uma prioridade. E nós temos sempre tempo para as nossas prioridades. 
Lembro-me que, quando era pequena e dizia à minha avó “tenho saudades desta pessoa”, ela respondia sempre “sabes onde ela mora, não sabes? Então não tens desculpa para teres saudades”. E é isso mesmo: não há desculpas. 

Publicado em Repórter Sombra

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Quando foi a última vez que conversaste com alguém?

quinta-feira, dezembro 20, 2018 5 Comments
Vais na rua. Cruzas-te com o João. Era teu colega no secundário e falavam durante horas a fio. Dizes “olá, tudo bem?”, mas nem esperas pela resposta. Segues caminho porque sabes que já ninguém responde ao “tudo bem?”. Ficamos só pelo “olá”.

Conversar parece já ter ficado fora de moda. Hoje em dia, falamos. Falamos como se falar fosse o suficiente. Mas não é. Falar é sinónimo de verbalizar. Deixar sair palavras da boca. Palavras que podem transformar-se em histórias que o outro não vai ouvir. “Papá, hoje fiz um desenho novo na escola”. “Boa, filho”. Sem diálogo. Damos “parabéns”, dizemos “obrigado”, “bom dia” e “até amanhã”. Perguntamos como correu o dia (de vez em quando) mas, metade das vezes, nem ouvimos a resposta porque estamos a pensar no que vamos fazer a seguir. No fundo, esquecemo-nos do outro. Porque já não sabemos o que é conversar. Esse conversar que é mais do que perguntar se está tudo bem ou como correu o dia.
Para muitos de nós, esta distinção já nem sequer existe. Acreditamos que o “estive a falar com a Andreia” significa que estivemos lá de corpo e alma. Mas não. Não é a mesma coisa. Conversar implica um friozinho na barriga. Aquele friozinho que te dá prazer por sentires que alguém te está a prestar atenção. Que ouve cada sílaba tua. Que pergunta. Que partilha as suas histórias contigo. Partilha. É esse o verdadeiro sentido da palavra “conversar”. Partilhar histórias, segredos e ambições. Sair do cinema e debater o cinema que viram juntos. Estar no teatro e dar as mãos naquela cena arrepiante ou ir às compras e não conseguir escolher nada porque se perderam a partilhar a história daquele arroz que ficou colado na panela na noite anterior. Isto é conversar.
E, se tiveres preguiça de ler este texto até ao fim –afinal, nunca temos tempo para nada- eu resumo-te o que significa conversar, numa frase. É encontrares o João na rua, parares, dizeres “olá, tudo bem?” e esperares pela resposta. O resto proporciona-se. É assim que a conversa surge. Não a percas.


Publicado em: Repórter Sombra.


terça-feira, 17 de julho de 2018

Mentir é a forma mais fácil de fugir à verdade

terça-feira, julho 17, 2018 1 Comments


Todos mentimos. E quem diz que nunca mentiu está, por si só, a mentir. A mentira faz parte de nós como as lágrimas ou os sorrisos. É algo que nem sempre conseguimos controlar ou explicar.
Uns mais, outros menos. Uns não conseguem controlar, chegando mesmo a desenvolver uma doença. Outros fazem-no porque se sentem melhor. E há ainda quem minta por achar que é a única opção. A mentira está no nosso ADN. Não há como negar que já recorremos à mentira em alguns momentos das nossas vidas. Mentimos aos nossos pais, aos nossos amigos e, o que nem sempre damos conta, mentimos a nós mesmos. Este último ponto é, em parte, aquele sobre o qual menos refletimos.
Já todos ouvimos a célebre frase “todos os adolescentes mentem aos pais de vez em quando”, seguida de um “eu sei porque já tive a tua idade”. Verdade. Já todos o fizemos ou porque sabíamos que os nossos pais não iam concordar com a verdade ou porque acreditámos que mentir seria a única forma de os proteger. No entanto, são poucas as pessoas que admitem que já mentiram a si mesmas. Mas a verdade é que isso também é uma realidade comum a todos nós. E se alguém a nega, então, ainda não se apercebeu disso.
Refletir sobre a mentira é examiná-la atingindo o nosso íntimo. Porque mentimos? O que é, de facto, a mentira? Acredito que não é nada mais nada menos do que a fuga à verdade. Muitos poderão dizer “Claro! A mentira é o oposto da verdade” mas, no fundo, isso não implicaria que o nosso propósito fosse fugir a essa mesma verdade. Mas é. Nós é que nem sempre percebemos e é aí que entra a importância de percebermos porque é que mentimos a nós mesmos. Se o entendermos, concluímos que a mentira é usada para fugir à verdade. Mentimos quando dizemos que estamos bem, porque queremos acreditar que estamos bem. Mentimos quando dizemos que já vimos todas as séries que o nosso namorado viu, porque queremos acreditar que ter coisas em comum faz com que tudo funcione. Mentimos quando dizemos que não se passa nada, porque queremos esquecer que se passa alguma coisa.
No fundo, a mentira é um escape. É uma forma de fugirmos à verdade que nos dói ou que vai doer se dissermos à pessoa a quem estamos a mentir. É vista como uma coisa negativa mas, na realidade, é muitas vezes utilizada como um escudo protetor. No entanto, e apesar de estar na nossa genética, não deve nunca ser a solução, por mais que nos proteja ou a quem amamos. Só vai parar de doer quando admitirmos que dói. Só vamos ficar bem quando admitirmos que estamos mal. A relação só vai funcionar quando admitirmos que nunca vimos aquela série mas que a queremos ver, lado a lado com a pessoa amada.
A honestidade é a chave para tudo. E, por vezes, mentir afirmando que está tudo bem e ver o outro acreditar sem fazer perguntas corrompe ainda mais o nosso íntimo. Às vezes, a melhor solução é chorar, dizer a verdade e acreditar que um abraço vai surgir como fruto da sinceridade. Dizer a verdade, significa resolver. Mentir é apenas adiar. Cabe-nos a nós decidir se queremos seguir em frente ou ficarmos no mesmo lugar.


Publicado em Repórter Sombra.

domingo, 15 de julho de 2018

Não tem de doer

domingo, julho 15, 2018 2 Comments
D.R.

Um dia destes disseram que me amavam. Uma coisa tão sincera e forte. Nunca fui boa a lidar com isso. Sempre fui melhor a amar do que a ser amada e o medo de "fazer asneira" apoderou-se de mim. Não queria ser o que já foram comigo. Não queria magoar. Não queria fazer doer. Queria ser a pessoa que não consegue retribuir mas que está lá. Que entende. Que apoia. Que ouve e se preocupa. 

Durante quase três anos, também amei alguém. Um amor diferente de todos os outros. Daqueles que te tira o ar e que não te deixa dormir à noite. Desta forma, quando alguém me disse que me amava, lembrei-me dessa fase da minha vida. Inspirei-me na pessoa que amei e no que ela foi para mim... diferente de todos os outros. O único amor que não doeu. O único que, ao invés de me fazer sentir pequenina, me engrandeceu. Um amor que, apesar de não ser correspondido, me ensinou que não precisa de o ser para ser mágico.
Esse amor foi o amor que eu quis ser para aquele que, infelizmente, não pude corresponder. Afinal, ninguém pode obrigar ninguém a amar. Mas não retribuir um sentimento não implica deixarmos o outro completamente no vazio. Isso é feio e triste. Quando alguém diz que me ama é o maior elogio que me pode fazer, por isso, eu não vou embora. Não me afasto. Não magoo. Porque raio é que vou partir o coração a alguém que me elogia dessa forma? Dizer que te amam é o mesmo que dizer que existes. Que importas. Que ocupas um espaço importante na vida desse alguém. E isso é tão bonito que nunca entendi porque é que tem de doer. Até conhecer alguém que me mostrou o contrário. 
Só dói se tu deixares. Não podes forçar-te a retribuir uma coisa que não sentes, mas podes estar lá. Podes perguntar "o que é que queres que eu faça? Diz e eu faço". Podes escolher aprender a lidar com isso ao invés de fugir a sete pés. Foi o que me fizeram e, por isso, durante 3 anos, não doeu. Porque a pessoa que eu amava soube tomar conta de mim. Soube ensinar-me a ver a vida de outra forma. Soube mostrar-me que eu sou especial de qualquer das formas. Fez-me sentir única, especial. Soube agradecer-me pelo facto de estar lá todos os dias. E isso, por si só, já é um gesto de amor. É compreensão. É ser-se adulto e é saber reconhecer que amar faz parte da vida e só um covarde magoa quem diz que o ama. E eu tive a sorte de, por uma vez na vida, me ter apaixonado por alguém que não era covarde. Que não foi embora e que escolheu ficar até hoje.
Por isso, não. O amor não tem de doer. Podes perfeitamente amar alguém que faz com que doa o menos possível. Alguém que te faça sentir orgulho em amar essa pessoa. "Eu amo-o, mas ele merece". É tão bom sentir isso. Mau é quando amas alguém que não merece. Que te trata como se o amares fosse errado. Nesse caso, vai embora e escolhe amar alguém que, mesmo não conseguindo amar-te de volta, cuida de ti e diz "eu estou aqui".
É esse o tipo de pessoa que eu quero ser. Aquela que cuida e não vai embora. Aquela que dá carinho ao invés de desprezar quem dá tudo por si.


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Perda ou afirmação da identidade?

quarta-feira, julho 04, 2018 4 Comments
D.R.

A internet veio mudar por completo o paradigma da comunicação. Há quem diga que mudou para melhor e há quem acredite que mudou para pior. Vantagens e desvantagens há em tudo. No entanto, é verdade que as proporções que a internet atingiu ao longo dos anos afetaram a nossa identidade e a forma como nos comunicamos aos outros.

A realidade é que, quando navegamos, podemos assumir qualquer identidade. O facto de nos comunicarmos com qualquer pessoa, de qualquer canto do mundo, faz com que, muitas vezes, não nos mostremos como realmente somos. Perdemos a nossa verdadeira identidade e, por vezes, sentimo-nos num vazio. Em casos extremos, acreditamos que somos mesmo aquela identidade que assumimos e esquecemo-nos do que somos realmente.
A noção de identidade na era digital veio fazer-nos acreditar que podemos ser tudo o que quisermos. Trouxe a possibilidade de manipularmos o outros mas, sobretudo, a nós próprios. Na internet podemos assumir uma vida que não temos. Podemos comunicar o que não somos, mas gostaríamos de ser. E esse poder é tão forte que chegamos a acreditar que temos uma identidade que, na realidade, não temos. E isso leva-nos a cometer erros. Devaneios. Injustiças.
No fundo, todos sabemos que isto é como um jogo. Todos somos aquilo que não somos. Todos temos a vida perfeita e fazemos as escolhas certas. Mas, no nosso íntimo, todos sabemos que não passa de uma falsa identidade. Porque, fora da internet, todos temos problemas. Os sorrisos dissolvem-se e dão lugar às lágrimas. Não nos conhecemos e, muito menos, conhecemos o outro. Temos inseguranças e uma identidade própria que, muitas vezes, não queremos aceitar por acreditarmos nas identidades que nos são exibidas através de um perfil do facebook ou de outra página qualquer. Mas, no fundo, sabemos que essas identidades são tão falsas quanto a nossa. Afinal, nós só mostramos o que queremos mostrar. E, na maior parte das vezes, mostramos apenas o melhor escondendo o lado mais obscuro e sombrio.
A internet é um poço de possibilidades, sim. Permite-nos uma liberdade de circulação incrível e, acima de tudo, rapidez. Permite-nos contactar com quem está longe de nós e nós sentimos saudade. Essa é uma das vantagens. Mas a forma como altera a nossa identidade pode ser uma das maiores desvantagens. Nem sempre somos nós. Nem sempre somos fiéis a nós próprios. Nem sempre nos protegemos como deveríamos. Na grande maioria do tempo, usamos a internet para afirmar a nossa identidade, mas acabamos por perdê-la ainda mais rapidamente.

Publicado em: Repórter Sombra.

sábado, 30 de junho de 2018

O poder de observar os outros

sábado, junho 30, 2018 3 Comments

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D.R.

Quando era pequena, dizia que queria ser médica para poder ajudar as pessoas. Desde o momento em que aprendi a falar, comecei logo a ser arrebatada com a pergunta "então, minha menina, o que queres ser quando fores grande?". Nos primeiros anos, respondia que queria ser mãe. Depois, percebi que queria ter outra profissão para além dessa. Então comecei a responder que queria ter uma profissão que ajudasse as outras pessoas e toda a gente, sem excepção, me falava da medicina. "Como queres tanto ser mãe e tens esse gosto tão grande por crianças, podes seguir pediatria".

Durante anos acreditei que podia ser médica. Mesmo quando passava as tardes inteiras em frente a um espelho com um microfone de plástico. Anos mais tarde, percebi que não são as profissões que ajudam as pessoas. Somos nós. Não podemos querer mudar o mundo num estalar de dedos, mas podemos ser o suficiente para mudar o mundo de alguém. Durante anos a fio, senti-me sozinha. Completamente deslocada do resto do mundo. Achava que a minha personalidade não se encaixava. E se os outros não conseguiam chegar até mim, a culpa só podia ser minha. Precisei de um abraço que nunca chegou. Precisei de uma palavra de conforto. Precisei que alguém puxasse a corda mas, na maior parte do tempo, achava que não havia sequer alguém para a segurar. Foi aí que percebi que não são as profissões que ajudam os outros. Somos nós e o nosso olhar sobre eles que, na maior parte das vezes, é inexistente. Só olhamos, nunca vemos. Nunca vemos os pedidos de ajuda discretos ou o olhar lacrimejante. Perguntamos mais vezes um "estás bem?" à pessoa que está conosco todos os dias do que àquele amigo que não vemos há semanas e que pode, de facto, estar sozinho no outro lado do mundo. Só nos preocupamos com o que está mesmo à nossa frente e esquecemo-nos que há mais para além disso. 
Na falta de um abraço ou de uma palavra de conforto, eu escrevia. Escrevia sobre o que sentia, sobre o que queria que mudasse no mundo, sobre o que via, sobre tudo... Anos depois, o microfone de plástico ganhou vida e transformou-se em metal. Escolhi uma profissão que me permitisse ajudar o outro com palavras e com a minha voz. As duas coisas que estiveram comigo nos anos mais duros e que nunca me abandonaram. Aprendi a aperfeiçoar a escrita e a voz para me poder ajudar a mim e aos outros. Não trouxe a minha profissão até mim por ser a mais digna ou a mais incrível. Trouxe-a porque ela sou eu. E eu quero ser eu até ao final da minha vida. Quero observar, ouvir e transmitir histórias. 
Desde que o fiz, a minha vida mudou. Às vezes, as pessoas perguntam-me como é que eu consigo perceber o que vai dentro dos outros sem sequer lhes perguntar. Acham-me louca quando digo que analiso todos os comportamentos de toda a gente que se cruza comigo. Parece psicopata para quem não está habituado a olhar pelo outro. Mas, para mim, é a coisa mais importante do mundo. 
Durante os últimos anos, conquistei muita coisa. E cada conquista deu-me uma sensação incrível. Mas nenhuma me soube tão bem como ler uma mensagem onde uma menina me dizia que "se todos temos um anjo da guarda, então o meu és tu". Uma menina que não me conhece minimamente bem. Uma menina que me faz voltar atrás no tempo. Porque eu já fui essa menina. Já me senti sozinha no mundo e encontrei o meu anjo da guarda. Há sempre alguém no fundo do túnel que aparece e te puxa a corda.
Prometi que, um dia, ia ser o anjo da guarda de alguém e ia puxar a corda que, um dia, quis que puxassem por mim. Hoje foi o dia. E esta sensação vale mais do que qualquer outra que já senti no mundo. E não precisei da minha profissão para mudar a vida de alguém. Precisei apenas de observar os sinais e dizer "relaxa, não estás sozinha, eu estou aqui".


A vida muda num simples sopro. E sempre para melhor. Basta praticarmos o bem.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

TOC

quarta-feira, junho 27, 2018 2 Comments
Parte do motivo pelo qual criei este blog foi a minha vontade enorme de contar histórias. Infelizmente, em algum momento da nossa vida, todos nos sentimos sozinhos. No entanto, há milhares de pessoas a sentir o mesmo que nós e nem sempre nos lembramos disso. O meu blog serve para dar voz a pessoas que queiram partilhar as suas histórias e chegar ao coração dos outros. É o caso do Leandro, que decidiu escolher este cantinho para partilhar algo que todos devíamos ler.

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D.R.

O texto seguinte é da autoria do Leandro, de 17 anos.

"Tudo começou quando era apenas uma criança. Eu era normal. Tinha medo do escuro, medo de ser abandonado,... Como todas as outras crianças, eu dependia dos meus pais, na verdade, sempre fui uma criança nervosa desde muito novo, mas o pior aconteceu por volta dos sete aos oito anos quando eu comecei a desenvolver um severo Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).
Eu não pensei naquilo como uma coisa anormal porque as crianças tentam perceber o mundo com o que lhes é dado, e em tão pouco tempo, estas obsessões e compulsividades tornaram-se na minha realidade. Ainda hoje me lembro da minha primeira obsessão. Durou semanas. Eu vou focar-me apenas nas circunstâncias mais importantes, porque senão eu ficaria aqui por horas e horas e continuaria sem dizer tudo que quero. Voltando à minha primeira obsessão, eu estava a viver na casa do meu irmão temporariamente e eu lembro-me dos vizinhos da frente terem duas estátuas que sempre me assustaram. Neste momento, devem estar a pensar que é completamente normal crianças terem medo de certas coisas e, sim, é verdade, mas o que não é normal é a maneira como o meu cérebro interpretou a realidade à minha volta. Eu lembro-me que se eu fizesse contacto visual com as ditas estátuas, eu acreditava que elas iriam roubar a minha alma e, então, eu fugia o mais rápido possível para a porta de casa do meu irmão e pedia ao adulto que estivesse comigo para abrir a porta o mais rapidamente possível, porque elas viriam atrás de mim. Até agora, isto pode ser visto como um medo muito drástico de alguma coisa, o que também continua a ser, realmente, normal até um certo ponto. Mas o que acontece depois é o que me viria a afetar mesmo oito anos depois (o momento em que estou a escrever isto). A maneira como a minha doença lidou com as coisas prendia-se com eu ter de fazer os malditos rituais quase todas as noites. Ou seja, eu acordava, levantava-me e era obrigado a andar em volta do corredor durante minutos/horas e espreitar o relógio de minuto a minuto. As primeiras partes da noite tornaram-se os meus dias. Eu sofria de ansiedade extrema e não entendia o porquê de este medo que existia na minha cabeça controlar a minha vida. Só sei que não pode ser explicado como “pensamentos”, porque não é isso que eles são. São muito mais que isso. São obsessões no teu cérebro a gritar por ti até não aguentares mais. Teres de te levantar da cama sete vezes, tocares nos joelhos e voltar a deitares-te ou até, neste exato momento em que escrevo isto, eu ter de ter os meus dedos dos pés numa certa posição porque a minha cabeça está a dizer-me que eu vou voltar para o mesmo sítio que acabei de descrever na minha infância só por estar a pensar em tal evento que aconteceu há anos atrás.
Este não foi o único caso. Eu sempre sofri e vou sofrer com estas obsessões todos os dias. Certos dias é mais fácil controlar e ignorar, apesar de conseguir sentir tais obsessões a gritar ao meu ouvido. Mas, noutros dias, durante a minha infância e ainda hoje, elas tornam-se mais fortes que eu. Voltando à minha infância, eu lembro-me de que ir sair com a minha mãe causava-me ansiedade, mesmo pelas coisas mais insignificantes na opinião de pessoas que não sofrem do mesmo problema. Havia dias em que eu simplesmente acompanhava a minha mãe na ida às compras e, por norma, eu passava por postes e, como o passeio era estreito demais, a minha mãe escolhia passar por um lado ou por o outro, enquanto eu era obrigado a passar por um certo lugar ou eu achava que ia ficar preso num mundo diferente. Eu dizia à minha mãe para seguir o mesmo caminho porque, se ela não seguisse esse caminho, coisas muito más iriam acontecer e a culpa seria toda minha. Num dia em que este tipo de obsessão aconteceu, eu chorei por quatro dias porque pensava que a minha mãe era outra pessoa simplesmente vestida na pele da minha mãe. E eu sei que não faz sentido e destrói qualquer tipo de lógica, mas eu devia ter uns nove ou dez anos e pensava que, se a minha cabeça me estava a dizer estas coisas, é porque era verdade. Eu não entendia que o meu cérebro era capaz de mentir a mim próprio, por isso, por mais estúpido que pareça, eu não tinha outra opção a não ser acreditar no que estava na minha cabeça.
Por volta dos onze ou doze anos, eu tentava ir na rua com a minha mãe e, em vez de seguir o caminho mais rápido, as minhas obsessões aterrorizavam a minha mente. Eu achava que. se eu não fosse dar a volta ao parque três vezes antes de seguir aquele caminho, coisas muito más iriam acontecer. 
Aos treze anos de idade, eu mudei-me para a Inglaterra e, dois anos depois, fui diagnosticado com TOC, quando este se tornou tão severo que eu acabei num hospital por não conseguir viver uma vida normal. Depois de estar internado um mês, eu saí e tive direito a terapia, a qual ainda estou a fazer para continuar a lidar com esta doença que me atormenta todos os dias. Foi-me receitada medicação que também me ajuda a controlar o stress das obsessões, mas como anteriormente disse, isto é uma doença séria e eu ainda continuo a sofrer por causa dela. Há quatro semanas atrás, eu melhorei depois de chorar sufocadamente dia sim, dia não, durante seis semanas por causa de uma obsessão muito poderosa. 
Outra coisa que gostaria de dizer antes de acabar este texto é que as obsessões que eu tenho agora são muito mais credíveis e realistas do que anteriormente. Não sou eu a má pessoa, mas sim a minha doença, por isso, se alguma vez alguém se abrir e confiar em ti com este tipo de problemas (o que é preciso muita coragem), por favor, tenta entender e perguntar de que forma podes ajudar. 
Obrigado por lerem a minha história. Eu sei que foi um pouco apressada e que escrevi isto tudo só de uma vez, mas isto são coisas que me dão muita ansiedade, porque a falar nelas faz com que tenham mais poder sobre mim."


Ajudem. Oiçam. Observem. Estejam lá. O significado de viver em sociedade é esse mesmo: estarmos lá uns para os outros.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Viver com ansiedade

terça-feira, maio 08, 2018 3 Comments

Pensei que ia enlouquecer. O coração começou a saltar de uma forma alucinante. Deixei de ter controle na minha respiração e o meu corpo começou a ficar fraco. Viver com ansiedade é isto.
Um dia perguntaram-me se eu já me tinha sentido discriminada por sofrer de ansiedade. Sem querer, um “sim” saiu-me da boca. Engraçado, nunca tinha pensado nisso mas a resposta tinha saído de forma completamente natural. Acho que o meu interior já a sabia há muito tempo. A verdade é que não é fácil seres compreendido numa situação destas. És o mimado, o fraco, a vítima... Acho que só quem passa, sabe. E muitas vezes nem esses. Porque todos somos diferentes e se vives bem com o facto de seres ansioso, vais sempre ver de forma diferente aquele que tem dificuldades em enfrentar o mesmo problema que tu, ao teu ritmo, enfrentaste.
Não é só “ansiedade”. Muitos generalizam como se fosse uma coisa natural. É estares sentada a ouvir uma aula e do nada o teu corpo começar todo a tremer e tu ficares completamente em pânico porque não queres que ninguém repare. Porque sabes que vão olhar para ti com aquela cara de “está a tremer, porque é fraca e está nervosa”. É estares 100% segura de que aquele exame vai correr bem, mas a tua mente insitir em dizer-te “não sejas assim, é óbvio que vai correr mal”. É quereres viver um dia de cada vez mas ouvires o teu cérebro dizer-te “qual futuro? vais ser tão infeliz. Não vais ser nada daquilo que queres”. Mas tu és uma pessoa positiva. E as pessoas sabem disso e, por isso, não querem saber dos dias em que estás mais negativa. “Oh dizes isso mas...”, “oh, amanhã já estás toda animada outra vez”. E isso só mexe mais com os teus nervos. O sangue começa a ferver, o coração a acelerar, as mãos a tremer, ouves as vozes lá no fundo, parece que vais desmaiar. Arranhaste umas quantas vezes porque precisas de libertar energia. Partes umas quantas coisas. Choras, gritas “mas eu sou fraca às vezes, também preciso”. Tiras um tempo para ti. Mandam-te mensagens, chamadas,... “Está estudar”, pensam eles. Abres a porta, sais do quarto, bebes um copo de água, tomas mais um daqueles medicamentos que estás farto de tomar mas que sabes que são essenciais para aguentares mais uma semana de tormento e depois voltas a sorrir. Passado umas horas, está tudo bem. Já acreditas na vida outra vez. O sorriso torna-se verdadeiro. Mas choras porque naquela hora e meia no teu quarto eras só tu. Só tu e a tua ansiedade. E sabes que vai ser sempre assim porque, por mais que as pessoas digam que entendem, nunca entendem. Afinal, somos todos diferentes. E ninguém tem culpa de não entender, exatamente por esse motivo.
Durante estes 3 anos de Licenciatura percebi que a ansiedade não é a pior coisa do mundo. E não é por ser “normal”, como muita gente acha. Mas porque durante estes 3 anos foi a minha companhia diária. Eu aprendi a lidar com ela e ela aprendeu a lidar comigo. Ela ensinou-me a ser mais egoísta e a preocupar-me, em primeiro lugar, comigo. E eu aprendi com ela que mais importante que a nossa saúde física é a nossa saúde mental. Agora, não tenho vergonha de dizer “sou uma pessoa ansiosa” por medo do revirar de olhos do outro lado. A ansiedade ensinou-me que as outras pessoas são apenas isso: as outras pessoas.


Nunca fez tanto sentido.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

É verdade, estou de volta!

segunda-feira, janeiro 29, 2018 5 Comments

Há cerca de quatro meses atrás, não sabia muito bem onde estaria agora. 
Há muitas pessoas que têm medo do futuro. Eu sempre tive uma certa curiosidade. Mas a verdade é que, em Setembro, pela primeira vez, senti medo. Depois de me licenciar não sabia o que se seguiria. Acho que só aí me mentalizei que era uma adulta e precisava de tomar decisões. E, bolas, eu odeio tomar decisões. Não é ter que as tomar, na verdade. Essa é a parte fácil. Difícil é conviver com o que quer que seja que tu decidas. "Se eu fizer isto e não aquilo e depois correr mal?", pensava eu. Por isso, durante o último semestre do meu último ano, a minha cabeça andava tão às voltas que pensei que não me ia conseguir licenciar por não ter cabeça para estudar sequer. Não sabia o que fazer a seguir. Na verdade, sempre soube o que queria fazer, o que me tirava o fôlego e aquilo que me ocupava o coração por inteiro. Só não sabia o que fazer para lá chegar. E se errasse o caminho? 
Quase no final do semestre, tomei a decisão de continuar a estudar. Sabia que a minha saúde não ia melhorar ao fazê-lo e que ficar sossegadinha no meu canto ou a distrair-me com outras atividades seria a melhor opção para o cansaço que o meu corpo já acusava. "Mas e a minha mente?", pensava eu. Sabia que se não continuasse, o meu psicológico iria ficar completamente apagado. Então segui o que o meu coração pedia e esqueci o resto do corpo.
No primeiro mês no mestrado tive a certeza de que era a maior sortuda do mundo por ter conseguido algo que queria tanto. Mas a carga de trabalho e o cansaço que me assombrava há 3 anos fizeram-me pensar, muitas vezes, que não ia conseguir. Tive medo de desistir quando lutei tanto para ali estar. Não conseguia concentrar-me nas tarefas porque o meu cérebro não conseguia pensar em nada. Estava exausta. Perto das avaliações decidi que não. Mas estava a gostar tanto de ali estar, não podia deixar as tarefas por cumprir. Então, contrariei-me. Contrariei o meu corpo e, mais uma vez, não deixei as minhas pernas falharem e treinei o meu cérebro a esperar mais um bocadinho até entrar em mood descanso.
Hoje, é dia 24 de janeiro e eu não podia estar mais feliz. Estou onde queria estar e a fazer aquilo que queria fazer. As noites em que adormeci a chorar de dores não se comparam às lágrimas que verti de felicidade por poder fazer aquilo que mais amo. Há tanta gente que não tem essa oportunidade, não é? 
A última semana foi a mais exaustiva que tive na vida. Como o cansaço não me deixou dar o que queria ao longo do semestre, deixei tudo acumular para a última semana. "Estou perdida. Não vou conseguir sequer entregar nada a tempo", pensei. Achei injusto estar a fazer o que me apaixona e correr o risco de não cumprir uma única tarefa das que me foram propostas. Até que me mentalizei que nem sempre tudo corre como queremos. Não podemos fazer tudo de forma organizada, a horas certas e no tempo a que queremos. Às vezes temos de adiar e pensar em nós. Descansar, chorar e pensar "será quando tiver de ser". Mas isso não significa que não vai acontecer. E quando me mentalizei disso, pus mãos à obra. A uma semana das entregas, levantei-me e decidi que ia não só fazer tudo o que tinha a fazer, como ia ficar orgulhosa do meu trabalho. Foi uma semana horrível, é verdade. Mas ao mesmo tempo tão, mas tão boa! Não falei com praticamente ninguém, não peguei no telemóvel mais do que uma hora por dia, não abri o facebook ou ouvi música. Fui só eu, a Sofia e o meu computador. E foi incrível! Cada palavra que escrevia me fazia sentir realizada. Vocês, que acham que as letras não interessam, nem imaginam a beleza que estão a perder. Conjugar palavras, construir frases, organizar pensamentos... É a melhor coisa do mundo. Dormi 4h por dia, adormeci a chorar todas as noites porque não aguentava as dores nas costas e o peso que tinha nos olhos. Os pássaros começavam a cantar e eu e a Sofia íamos dormir e, dali a 4h, lá estávamos nós outra vez. Comemos muitas vezes comida improvisada e fazíamos turnos para tomar banho. "Primeiro vais tu e eu faço isto e depois vou eu e tu fazes o resto", combinávamos. E resultou. Ao início desta tarde entreguei o último trabalho desta primeira fase e foi uma descarga de energia que ninguém imagina. E o melhor de tudo? Sinto que não podia estar melhor. Estou orgulhosa de mim mas, mais do que isso, estou orgulhosa do que eu e a Sofia fizemos juntas. Nunca conheci ninguém que lutasse tanto quanto eu. Sabia que se eu quisesse lutar seria difícil convencer outro alguém a ficar acordado até às 6h da manhã ou não comer em condições. Desistir é mais fácil quando "se pode fazer para o ano". Mas eu não gosto de desistir. E sabia que a minha parceira também não. E é por isso que eu nos amo. Porque somos lutadoras e juntas fazemos tudo. 
Não sei o que estaria a fazer se naquele dia tivesse desistido de enviar aquela candidatura e, sinceramente, não quero saber. Hoje, estou no sítio onde queria estar. Hoje, consegui fechar uma primeira etapa de muitas que ainda estão por vir. E agora, finalmente, vou dormir em paz e aproveitar o meu merecido descanso.


Isto tudo para vos dizer que, depois de umas semanas inativa, estou de volta ao blog <3

sábado, 23 de dezembro de 2017

A curiosidade matou o gato… ou não!

sábado, dezembro 23, 2017 2 Comments

Já todos ouvimos o famoso ditado “a curiosidade matou o gato”. Este serve para nos alertar para o facto de a curiosidade nem sempre ser uma coisa positiva. Mas esse “nem sempre” pressupõe que há alturas em que a curiosidade é, de facto, uma coisa boa.
Uma delas está relacionada com os negócios. Ser curioso é, sem dúvida, uma característica que pode contribuir para uma carreira de sucesso. Isto porque os curiosos investigam, procuram as respostas para todas as suas questões e vão para além daquilo que é o conhecimento comum. E isso pode ser uma vantagem, uma vez que qualquer empregador procura a novidade. Alguém capaz de superar as expectativas e, acima de tudo, de se superar a si mesmo. E a curiosidade é um excelente ponto de partida para essa superação.
Se pesquisarmos a palavra “curiosidade” vamos, rapidamente, perceber que grande parte desses sinónimos são palavras negativas. “Intromissão”, “bisbilhotice” e “inconveniência” são algumas das palavras que se destacam nesta definição. No entanto, se olharmos bem, vamos reparar que também existe o oposto. “Raridade”, “preciosidade”, “singularidade” e “originalidade” são, também, sinónimos associados à curiosidade. E, no fundo, são estas as características que vamos tentando conquistar ao longo da nossa vida. E se procuramos ser singulares, originais e raros é porque temos consciência de que isso nos trará sucesso e, consequentemente, felicidade. Então porque é que não nos apercebemos que a curiosidade pode ser um ponto de partida para esse sucesso? Porque, grande parte das vezes, a associamos apenas ao seu lado negativo e nos esquecemos do positivo. No entanto, é extremamente importante entender as vantagens de se ser curioso.
Ser curioso é ter um olhar atento sobre o mundo. É aprofundar o que para os outros é superficial. É fazer a diferença. É questionar. Ser curioso é sinónimo de uma carreira de sucesso. Afinal, não será merecedor de uma excelente carreira aquele que questiona quando o resto do mundo exclama?


Publicado em Repórter Sombra.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

És a única coisa que me faz ter medo de morrer

quarta-feira, dezembro 13, 2017 4 Comments
És a única coisa que me faz ter medo de morrer.
Nunca temi a morte. Acho que há coisas que, quando não as podemos mudar, só temos de as aceitar. Por isso, sempre vivi bem e feliz e sempre soube que, se um dia tivesse de ir, ia realizada por tudo o que fui vivendo ao longo da vida. Mas depois chegaste tu. Chegaste de mansinho e viraste-me do avesso. Hoje em dia, não consigo sequer pensar em morrer. Não quero ir embora e não olhar mais para ti. Não quero não ver-te entrar por aquela porta com cara de quem não dormiu a noite inteira e só quer voltar para casa. Não quero deixar de sentir o teu perfume quando, num abraço profundo, te agradeço por me fazeres tão feliz. Não quero não estar aqui para te ver viver, porque ver-te viver é a maior felicidade que tenho na vida.
No entanto, mais do que eu morrer, assusta-me que tu morras. Às vezes penso nisso, sabes? A vida é tão curta e a morte passa-nos à frente tantas vezes. E depois penso que um dia tu podes não estar aqui. Podes estar feliz a conduzir sem destino e, no instante a seguir, não estares aqui porque alguém decidiu passar o sinal vermelho. Ou então o corpo pode falhar-te e os médicos não te salvarem a tempo. Às vezes penso nisso e choro, sabes? Imagino como seria olhar para ti numa cama do hospital enquanto a tua respiração ia ficando mais fraca até não respirares mais. E eu ali ao lado, com a consciência de que tinha tantas coisas para dizer que não disse. É isso que acontece quando alguém que amamos morre, não é? Lamentamos não termos dito, não termos abraçado, não termos amado o suficiente. A diferença é que eu lamento tudo isto contigo vivo. A diferença é que eu amo o suficiente, mas nem sempre o suficiente chega para abraçar sem medo.
Quando penso que a vida te pode levar sem avisar sinto uma dor maior do que a que sinto que a vida me pode escolher para ir embora a qualquer momento. Acho que é porque não consigo conceber a ideia de não te ver entrar por aquela porta, ouvir-te procurar a chave do carro dentro do bolso ou sentir o movimento dos teus lábios a esboçarem um sorriso quando digo uma parvoíce qualquer. É isso que me atormenta, sabes? Pensar que um dia tudo isso vai acabar e tu não vais estar aqui. E eu também não. E não vamos passar de memórias.

O mistério da vida é nunca sabermos quando não vamos estar cá. Dizem que, por isso, devemos sempre dizer aos que amamos que os amamos. Na falta de coragem para to dizer, escrevo-to. São 01:44 e não sei se amanhã acordo. Nunca sabemos. Por isso, quando eu já não estiver cá e a única coisa que sobrar de mim forem as memórias não te esqueças que foste a primeira pessoa que amei sem medida e continuaste a ser tu no meu último suspiro.

Texto da minha autoria publicado em Sabes Muito.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Mulher para presidente? Não!

terça-feira, setembro 19, 2017 9 Comments


Colocaram-me a questão: “porque é que um homem teme uma mulher para presidente?”. Tentei refletir e encontrar uma resposta certa para essa pergunta, mas percebi que não a tinha. Lembrei-me, então, de um título que li algures “homem não teme mulher independente, mas teme mulher autónoma”.
A verdade é que, durante muitos séculos, a  mulher foi sustentada pelo marido. Era vista como incapaz e impotente. E, atualmente, as coisas já não funcionam assim. As mulheres ganham o seu próprio dinheiro e são independentes. Mas penso que não seja a independência o que mais assusta os homens, mas a autonomia. Sim, porque autonomia e independência são duas coisas distintas. Enquanto uma mulher independente pode não ser autónoma, uma mulher autónoma vai ser sempre independente. Isto porque vai à luta, procura, investiga, toma iniciativa e não tem medo de mostrar que não precisa de ninguém para se afirmar.
Ora, partindo deste princípio, talvez se encontre uma possível resposta para a difícil questão colocada no início deste artigo. Quando uma mulher decide que quer ser presidente é, claramente, autónoma. Aliás, é dos maiores atos de autonomia que podem existir. É o querer ir mais além, é o querer governar. E se uma mulher que tem autonomia quanto a si mesma já assusta um homem, imaginem com autonomia quanto a um país inteiro. Isso, aliado ao facto de a mulher já ter sido dependente e vista como um ser inferior, assusta. Nem todos os homens estão habituados ou aceitam que o estatuto da mulher tenha mudado ao longo dos anos. Alguns ainda a encaram como incapaz de assumir algumas funções, funções essas que, para eles, são funções apenas de homens. E quando uma mulher tenta assumir essas funções, nem todos estão de acordo.
Posto isto, penso que a questão “porque é que um homem teme uma mulher para presidente?” vai ser sempre difícil de responder. Acho que nem os próprios homens têm a resposta certa para essa pergunta. Mas também penso que é exatamente por aí que temos de começar a refletir. Não será que o facto de não termos resposta para essa questão já é, por si só, uma resposta?

Publicado em Repórter Sombra.


sexta-feira, 7 de julho de 2017

Realizações de 2017 #4: Licenciada em Jornalismo e Comunicação!

sexta-feira, julho 07, 2017 6 Comments


Há 3 anos, vi-me embarcar numa nova aventura. Sentia um misto de medo com entusiasmo. Nunca tinha pensado em estudar em Coimbra, mas no primeiro dia em que me vi naquela cidade senti-me em casa. Tive a certeza que era ali que queria estar. 

Apesar das semanas terríveis em que me sentia completamente sozinha e com saudades de casa, fui-me apaixonando a cada novo dia. E a verdade é que chegar ao último ano fez-me perceber que quando nos dizem "vão ser os melhores anos da tua vida", não é tão cliché quanto eu pensava. Isto porque Coimbra e o curso de Jornalismo fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Não é fácil estares longe de casa, numa cidade onde não conheces ninguém e a lutar por um sonho sem teres um abraço amigo por perto. E essa experiência fez-me crescer tanto que cada vez tenho mais a certeza que cheguei à faculdade uma criança e saí de lá uma mulher. 
Em Coimbra, perdi medos e inseguranças. Conheci pessoas completamente diferentes de mim e que me mostraram que há muito mais para além daquilo que conhecemos. Aprendi que pensar mais em mim é a melhor forma de ajudar os outros. Que ainda existem amores verdadeiros e que as vitórias não valem nada se não tivermos um ombro amigo com quem as partilhar. Aprendi que amo mais Jornalismo do que pensava quando tantas vezes, a meio da semana, queria desistir por sentir-me completamente confusa. E tudo isto só foi possível porque tive as pessoas certas do meu lado. 
São muitos aqueles a quem tenho de agradecer, porque a verdade é que foram eles que me deram força nos dias mais cinzentos desta licenciatura. Ao meu pai, por acreditar sempre em mim e sentir-se orgulhoso pelo mais simples ato meu. À minha mãe, por me receber sempre de braços abertos. Ao meu irmão, por me incentivar sempre a lutar pelos meus sonhos. À minha avó por ser a mulher da minha vida. À Joana, à Sofia, à Cláudia e à Catarina por terem sido o meu porto de abrigo e os meus maiores amores. A essas, levo-as para a vida. À Matilde e à Madalena por me mostrarem uma ligação única na minha vida. Começaram por ser afilhadas e tornaram-se as amigas que vão estar sempre comigo, em qualquer parte do planeta. À minha melhor amiga, por acompanhar cada nova etapa e estar presente em todos os momentos da minha vida. Ao Cristiano, por ser a melhor pessoa que podia ter conhecido e que acredita que eu sou capaz mesmo quando eu já não acredito. À Diana, por ser a amiga de todas as horas e por estar lá, mesmo quando tantas vezes lhe falhei por estar a lutar por este sonho. À Mariana e à Poly, por serem as amigas do secundário que continuam aqui, como se continuassemos a ser aquelas meninas que passavam os intervalos a conversar sobre cenas variadas. À Joana Maia, por me ter mostrado que ainda existem pessoas bondosas e genuinamente puras neste mundo. À Liliana e à Maria Inês, por me terem ensinado que é possível revermo-nos e identificarmo-nos com alguém no primeiro segundo. E ao Emanuel, por ter sido o melhor irmão que Coimbra me podia ter oferecido.
Em Coimbra, vivi, chorei, ri, enfrentei os meus medos, lutei por mim e, acima de tudo, conheci-me. Eu não me conhecia até embarcar nesta aventura. No entanto, a coisa mais importante que levo daqui é aquilo que mais me agrada na vida: o conhecimento. E não poderia deixar de agradecer a todos aqueles que me ensinaram tanto e me permitiram chegar até aqui. A todos os Professores, quer de Jornalismo e Comunicação quer de Estudos Artísticos, que me ensinaram que a busca pelo conhecimento nunca deve ter um fim. Especialmente, ao Professor Sílvio Santos, pela paciência infinita e por me ter ajudado a descobrir a importância enorme que a rádio tem na minha vida. Ao Professor Carlos Costa, por me ter ensinado que é possível unir as Artes e o Jornalismo, não deixando qualquer sonho de parte. E, claro, à Professora Conceição Pires, por continuar aqui desde o ensino secundário e por lutar por mim e pelo meu futuro sempre. 
Hoje, sou Licenciada em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Hoje, realizei um dos meus sonhos. Hoje, sou completamente feliz. E, de hoje em diante, só posso prometer o que prometi no primeiro dia em que cheguei à cidade do meu coração: continuar a amar o azul escuro e apaixonar-me todos os dias por esta profissão. Obrigada! 

terça-feira, 13 de junho de 2017

O amor não requer sacrifício

terça-feira, junho 13, 2017 6 Comments

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Não me considerava um ser humano. Talvez porque um ser humano tem sentimentos e eu tinha-me esquecido dos meus. Depois descobri-te. E descobrir-te fez-me descobrir-me.
Não me lembro de um único dia em que tenha pensado só em mim. Sempre pus os outros em primeiro lugar. Achava eu que isso é a maior prova de amor que podemos dar àqueles que nos são queridos: pô-los sempre em primeiro lugar e estarmos lá com um sorriso mesmo quando o nosso mundo está prestes a desabar. Mas, como em qualquer conto de fadas, aparece sempre algo ou alguém que nos vira de cabeça para baixo e nos faz mudar completamente a perspetiva que temos do mundo. Essa é a vantagem de convivermos com pessoas diferentes de nós. Elas dão-nos uma visão diferente e fazem-nos refletir sobre aspetos sobre os quais nunca tínhamos sequer pensado.
Apareceste do nada. Não sei bem de onde nem sei bem como. Não sei porque raio tinhas de cruzar o meu caminho. Ou eu tinha de cruzar o teu. No meio de tantas possibilidades, fui logo tropeçar em ti. E o pior é que gostei. Porque foi graças a ti que iniciei um processo de descoberta de mim mesma. É incrível como a pessoa certa no sítio certo pode mudar a nossa vida. Deste-me a força que eu precisava para ser tudo aquilo que eu sempre quis ser mas que nunca consegui. Acho que sempre precisei de um empurrão de alguém que fosse especial e que me conseguisse trazer de volta à vida. E, bolas, tu conseguiste. Não sei que poder tens, mas conseguiste! Mudaste-me de uma forma tão absurda que dou por mim a não me reconhecer. Talvez porque nunca me tenha conhecido realmente e isso só esteja a acontecer agora. Só agora comecei, realmente, a pensar em mim. E é uma sensação tão boa!
Amar os outros não implica anularmo-nos em função deles. Achava eu que sim. Ao contrário do que muitos dizem, o amor não requer sacrifício. A partir do momento em que eu sinta que estou a fazer um sacrifício, então talvez já não seja amor. Amor é liberdade. Liberdade de sermos um com o outro e não um em função do outro. E liberdade é sermos, de vez em quando, egoístas. E tu ensinaste-me a ser egoísta. A olhar para mim e para aquilo que me faz bem. A entender-me. A ouvir-me. A dar-me a mim mesma quando tudo o que eu fazia era dar-me aos outros. E no meio de tanta dor por não estares aqui, eu não podia estar mais feliz. Porque sinto que aos poucos eu sou eu mesma, mesmo que todo este processo doa mais do que devia.
A vida é boa quando temos alguém que nos aceita como somos. Mas é espetacular quando alguém chega de fininho e nos empurra para o desconhecido a fim de nos tornar alguém melhor. E hoje, eu não sei se sou uma pessoa melhor ou pior que ontem. Mas de uma coisa tenho a certeza: sou, sem dúvida, uma pessoa mais forte e completa do que algum dia fui. Pudesse eu dizer-te tudo isto. Tenho a certeza que um dia vou dizer-te isto. Não me desses tu a força necessária para ser corajosa, sem saberes que é para ti que preciso de maior coragem.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Parabéns, pai!

sexta-feira, maio 12, 2017 4 Comments


Parabéns àquele que está sempre lá independentemente de tudo. Parabéns àquele que nunca desiste de mim e de incentivar a perseguir os meus sonhos. Parabéns ao homem mais generoso e fantástico do planeta Terra. Ele é o meu pai e hoje completa 56 anos. Parabéns, pai! Que sejas sempre feliz e que eu esteja sempre ao teu lado para te amar incondicionalmente. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Realizações de 2017 #2

sexta-feira, fevereiro 10, 2017 6 Comments
A segunda realização do meu ano foi ter conseguido tirar a carta de condução. Já há algum tempo que tinha este objetivo mas não tinha tido a coragem necessária para me aventurar. No passado dia 2 de fevereiro, este desejo concretizou-se e não poderia estar mais feliz! :)


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A minha Professora de Português

quinta-feira, janeiro 26, 2017 1 Comments
Enganam-se aqueles que não acreditam que um aluno pode ter uma excelente relação com um professor. Sou a prova viva de que é possível vermos num professor um amigo para a vida, alguém que vamos guardar sempre no coração.
Estou no terceiro ano da faculdade e, como tal, passei por aquela fase dolorosa de deixar o ensino secundário para trás e ir viver e estudar para uma cidade completamente desconhecida. Os primeiros meses foram terríveis. Chorava todos os dias com saudades de casa e das pessoas que fizeram parte da minha vida durante anos. Tive de começar tudo de novo. Novos colegas, novos amigos, novos professores… Tanta novidade assustou-me! E no meio de tanta coisa nova, senti falta da minha antiga escola. Senti falta de ser uma adolescente no ensino secundário. Mas acima de tudo, senti falta da relação que tinha com alguns professores. O problema de começarmos tudo do zero é a incerteza. Não sabemos se vamos ser bem aceites pelos outros e se vão gostar de nós. Os professores não sabem os nossos nomes porque somos imensos e começamos a sentir saudades daqueles que, não só sabiam os nossos nomes, como estavam sempre disponíveis para nós. Durante estes três anos, foram muitas as lágrimas que deixei cair. Muitas delas com saudades daquela que começou por ser a minha professora de francês e acabou sendo a minha professora de português. Aquela que me ouvia quando eu precisava e que sempre acreditou em mim, independentemente de tudo. Aquela que me chamava “minha menina” e me tratava como se eu fosse importante para ela. Porque no coração dela havia um lugar especial para “os seus meninos”. Os alunos que ela tanto adorava. A professora que me abraçou e me beijou quando percebeu que eu tinha conseguido entrar no curso que queria. A prova de que os professores não são “bichos papões” que só sabem pôr-nos de castigo. A prova de que os professores também sentem e conseguem fazer os alunos sentirem-se em casa. Sim, porque com a minha professora de português, eu sentia-me em casa. Sentia-me acompanhada e sentia-me capaz de tudo. E se hoje eu estou onde estou, em parte o devo a ela. Porque nos momentos de maior dor, foi a ela que fui buscar forças. À mulher incrível que nunca me deixou ir abaixo, que tinha sempre um sorriso amoroso para dar e um abraço apertado à minha espera quando eu precisava.
Durante meses, não vi a minha professora. Durante meses, senti a sua falta. Os professores novos deixavam-me cair na tristeza, afinal, não era a mesma coisa. Já não havia aquela preocupação e eu passei a viver na correria do “desenrasca-te e é se queres”. E chegava a casa e chorava horas e horas a fio porque sentia falta de uma professora que conseguisse ser exigente e doce ao mesmo tempo. Sentia falta de ser tratada como o ser humano que sou. Sentia falta de ser a Cátia e não só mais uma aluna no meio de centenas. Porque na minha aula de português, eu tinha um nome. Porque na minha aula de português, eu sentia-me feliz. E chegar a casa depois de um dia de aulas doloroso e lembrar-me disso, deixava-me triste. No ano passado, voltei a ver a minha querida professora de português e posso dizer que soube melhor do que qualquer diploma ou noite académica. Voltei a sentir que sou a Cátia. Voltei a rever aquela que é a minha inspiração para ser uma pessoa forte todos os dias. E as lágrimas não caíram na hora em que a abracei mas caíram quando cheguei a casa e percebi que há pessoas que nunca vão sair do nosso coração, por mais longe que estejamos.
No ensino secundário, foram muitos os professores que me marcaram e foram ainda mais as saudades que ficaram. Mas nada se compara à minha professora de português. Aquela de quem já todos os meus amigos em Coimbra ouviram falar. Aquela que, sem saber, todos os dias me dá força para lutar pelos meus sonhos e ser feliz. Porque um professor deve ser isso mesmo: alguém que, para além de te transmitir conhecimento, te motiva a seres alguém melhor todos os dias.
Publicado em Capazes.

Até logo, Diamond!

Obrigada pela visita!
Volta Sempre :)