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sábado, 30 de junho de 2018

O poder de observar os outros

sábado, junho 30, 2018 3 Comments

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D.R.

Quando era pequena, dizia que queria ser médica para poder ajudar as pessoas. Desde o momento em que aprendi a falar, comecei logo a ser arrebatada com a pergunta "então, minha menina, o que queres ser quando fores grande?". Nos primeiros anos, respondia que queria ser mãe. Depois, percebi que queria ter outra profissão para além dessa. Então comecei a responder que queria ter uma profissão que ajudasse as outras pessoas e toda a gente, sem excepção, me falava da medicina. "Como queres tanto ser mãe e tens esse gosto tão grande por crianças, podes seguir pediatria".

Durante anos acreditei que podia ser médica. Mesmo quando passava as tardes inteiras em frente a um espelho com um microfone de plástico. Anos mais tarde, percebi que não são as profissões que ajudam as pessoas. Somos nós. Não podemos querer mudar o mundo num estalar de dedos, mas podemos ser o suficiente para mudar o mundo de alguém. Durante anos a fio, senti-me sozinha. Completamente deslocada do resto do mundo. Achava que a minha personalidade não se encaixava. E se os outros não conseguiam chegar até mim, a culpa só podia ser minha. Precisei de um abraço que nunca chegou. Precisei de uma palavra de conforto. Precisei que alguém puxasse a corda mas, na maior parte do tempo, achava que não havia sequer alguém para a segurar. Foi aí que percebi que não são as profissões que ajudam os outros. Somos nós e o nosso olhar sobre eles que, na maior parte das vezes, é inexistente. Só olhamos, nunca vemos. Nunca vemos os pedidos de ajuda discretos ou o olhar lacrimejante. Perguntamos mais vezes um "estás bem?" à pessoa que está conosco todos os dias do que àquele amigo que não vemos há semanas e que pode, de facto, estar sozinho no outro lado do mundo. Só nos preocupamos com o que está mesmo à nossa frente e esquecemo-nos que há mais para além disso. 
Na falta de um abraço ou de uma palavra de conforto, eu escrevia. Escrevia sobre o que sentia, sobre o que queria que mudasse no mundo, sobre o que via, sobre tudo... Anos depois, o microfone de plástico ganhou vida e transformou-se em metal. Escolhi uma profissão que me permitisse ajudar o outro com palavras e com a minha voz. As duas coisas que estiveram comigo nos anos mais duros e que nunca me abandonaram. Aprendi a aperfeiçoar a escrita e a voz para me poder ajudar a mim e aos outros. Não trouxe a minha profissão até mim por ser a mais digna ou a mais incrível. Trouxe-a porque ela sou eu. E eu quero ser eu até ao final da minha vida. Quero observar, ouvir e transmitir histórias. 
Desde que o fiz, a minha vida mudou. Às vezes, as pessoas perguntam-me como é que eu consigo perceber o que vai dentro dos outros sem sequer lhes perguntar. Acham-me louca quando digo que analiso todos os comportamentos de toda a gente que se cruza comigo. Parece psicopata para quem não está habituado a olhar pelo outro. Mas, para mim, é a coisa mais importante do mundo. 
Durante os últimos anos, conquistei muita coisa. E cada conquista deu-me uma sensação incrível. Mas nenhuma me soube tão bem como ler uma mensagem onde uma menina me dizia que "se todos temos um anjo da guarda, então o meu és tu". Uma menina que não me conhece minimamente bem. Uma menina que me faz voltar atrás no tempo. Porque eu já fui essa menina. Já me senti sozinha no mundo e encontrei o meu anjo da guarda. Há sempre alguém no fundo do túnel que aparece e te puxa a corda.
Prometi que, um dia, ia ser o anjo da guarda de alguém e ia puxar a corda que, um dia, quis que puxassem por mim. Hoje foi o dia. E esta sensação vale mais do que qualquer outra que já senti no mundo. E não precisei da minha profissão para mudar a vida de alguém. Precisei apenas de observar os sinais e dizer "relaxa, não estás sozinha, eu estou aqui".


A vida muda num simples sopro. E sempre para melhor. Basta praticarmos o bem.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A bondade tem limites?

sexta-feira, abril 06, 2018 3 Comments

A bondade define-se pela inclinação que cada um de nós tem para praticar o bem. É certo que nem sempre conseguimos distinguir o bem do mal, mas mesmo quando erramos a tentar fazer bem, a intenção está lá. E, às vezes, basta existir a intenção para haver bondade.
Todos queremos – ou, pelo menos, deveríamos querer- ser bons cidadãos e bons seres humanos. A bondade ajuda a melhorar o mundo e, se não resolver todos os problemas, ajuda a resolver alguns. Um coração bom é capaz de coisas incríveis e o melhor de tudo é que pode mudar vidas. No entanto, a bondade em demasia também pode trazer desvantagens. A verdade é que tudo tem limites… até as coisas boas. Assim, a questão que se coloca é: qual o limite da bondade?
A resposta parece fácil mas não é. Muitos dirão que o limite é a falta de retribuição, isto porque muitas vezes somos bons e recebemos exatamente o oposto em troca. Outros responderão que o limite é a sinceridade dos nossos atos. Seremos sempre genuinamente bons? Ou, algumas vezes, somos bons porque isso nos vai fazer sentir melhor com nós mesmos? Qualquer uma destas respostas é aceitável. Assim como muitas outras.
No entanto, penso que nunca atingimos realmente o limite da bondade porque quando se é genuinamente bom, não dá para deixar de o ser. Por mais que essa bondade não seja reconhecida, valorizada ou aceitada, quando o somos porque está na nossa natureza não há limites. Podem partir-nos o coração, podem dizer-nos que somos bons demais para um mundo tão cruel, podem fazer-nos sentir que não vale a pena e nós podemos mesmo acreditar que “já chega”. Mas nunca chega. Porque está na nossa constituição e o que nasce connosco dificilmente se altera.
A bondade não tem limites. Há quem ache o mesmo da maldade e com razão. Mas por culpa do mau, acreditamos poucas vezes que o bom também é imparável. Mas é. E ainda bem. Que nunca deixemos de acreditar que o bem pode vencer o mal. Porque pode. Só depende de nós próprios e da genuinidade dos nossos sentimentos.

Publicado em Repórter Sombra.


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