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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A minha Professora de Português

quinta-feira, janeiro 26, 2017 1 Comments
Enganam-se aqueles que não acreditam que um aluno pode ter uma excelente relação com um professor. Sou a prova viva de que é possível vermos num professor um amigo para a vida, alguém que vamos guardar sempre no coração.
Estou no terceiro ano da faculdade e, como tal, passei por aquela fase dolorosa de deixar o ensino secundário para trás e ir viver e estudar para uma cidade completamente desconhecida. Os primeiros meses foram terríveis. Chorava todos os dias com saudades de casa e das pessoas que fizeram parte da minha vida durante anos. Tive de começar tudo de novo. Novos colegas, novos amigos, novos professores… Tanta novidade assustou-me! E no meio de tanta coisa nova, senti falta da minha antiga escola. Senti falta de ser uma adolescente no ensino secundário. Mas acima de tudo, senti falta da relação que tinha com alguns professores. O problema de começarmos tudo do zero é a incerteza. Não sabemos se vamos ser bem aceites pelos outros e se vão gostar de nós. Os professores não sabem os nossos nomes porque somos imensos e começamos a sentir saudades daqueles que, não só sabiam os nossos nomes, como estavam sempre disponíveis para nós. Durante estes três anos, foram muitas as lágrimas que deixei cair. Muitas delas com saudades daquela que começou por ser a minha professora de francês e acabou sendo a minha professora de português. Aquela que me ouvia quando eu precisava e que sempre acreditou em mim, independentemente de tudo. Aquela que me chamava “minha menina” e me tratava como se eu fosse importante para ela. Porque no coração dela havia um lugar especial para “os seus meninos”. Os alunos que ela tanto adorava. A professora que me abraçou e me beijou quando percebeu que eu tinha conseguido entrar no curso que queria. A prova de que os professores não são “bichos papões” que só sabem pôr-nos de castigo. A prova de que os professores também sentem e conseguem fazer os alunos sentirem-se em casa. Sim, porque com a minha professora de português, eu sentia-me em casa. Sentia-me acompanhada e sentia-me capaz de tudo. E se hoje eu estou onde estou, em parte o devo a ela. Porque nos momentos de maior dor, foi a ela que fui buscar forças. À mulher incrível que nunca me deixou ir abaixo, que tinha sempre um sorriso amoroso para dar e um abraço apertado à minha espera quando eu precisava.
Durante meses, não vi a minha professora. Durante meses, senti a sua falta. Os professores novos deixavam-me cair na tristeza, afinal, não era a mesma coisa. Já não havia aquela preocupação e eu passei a viver na correria do “desenrasca-te e é se queres”. E chegava a casa e chorava horas e horas a fio porque sentia falta de uma professora que conseguisse ser exigente e doce ao mesmo tempo. Sentia falta de ser tratada como o ser humano que sou. Sentia falta de ser a Cátia e não só mais uma aluna no meio de centenas. Porque na minha aula de português, eu tinha um nome. Porque na minha aula de português, eu sentia-me feliz. E chegar a casa depois de um dia de aulas doloroso e lembrar-me disso, deixava-me triste. No ano passado, voltei a ver a minha querida professora de português e posso dizer que soube melhor do que qualquer diploma ou noite académica. Voltei a sentir que sou a Cátia. Voltei a rever aquela que é a minha inspiração para ser uma pessoa forte todos os dias. E as lágrimas não caíram na hora em que a abracei mas caíram quando cheguei a casa e percebi que há pessoas que nunca vão sair do nosso coração, por mais longe que estejamos.
No ensino secundário, foram muitos os professores que me marcaram e foram ainda mais as saudades que ficaram. Mas nada se compara à minha professora de português. Aquela de quem já todos os meus amigos em Coimbra ouviram falar. Aquela que, sem saber, todos os dias me dá força para lutar pelos meus sonhos e ser feliz. Porque um professor deve ser isso mesmo: alguém que, para além de te transmitir conhecimento, te motiva a seres alguém melhor todos os dias.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Os rufias de argolas nas orelhas

quinta-feira, outubro 13, 2016 2 Comments
Tenho 21 anos e vivo no século XXI. Como tal, tenho amigos homens que aderiram ao uso de argolas nas orelhas, tatuagens e afins. Uma coisa normal para mim, mas anormal para outros.
A verdade é que cada vez mais acho que vivemos numa sociedade em que toda a gente diz “cada um é livre de fazer o que quer” ou “cada um é como é” e, no final de contas, as coisas são tudo menos como se diz. Isto porque é fácil dizer “a vida é dele” mas é difícil não julgar. E se antes eu achava –na minha ingenuidade- que, finalmente, as pessoas começavam a aceitar que a aparência não define personalidade, agora vejo que não. Infelizmente ainda há muita gente que acha que a aparência influencia a personalidade. Afinal, é impossível que um homem que usa argolas ou esteja todo tatuado seja um santinho. A esses já ouvi chamar de tudo. São os rufias, os que arranjam inúmeros problemas, os que estão sempre metidos em confusões e que de santos não têm nada. E quando perguntamos às pessoas que pensam isso deles o porquê de os apelidarem assim, não têm argumentos. Talvez porque eles não existam. Talvez porque a única lei pela qual se regem os seus comentários são as “argolinhas” que denunciam que aquele ser é um marginal. Mesmo que não o seja. Um único objeto que em nada devia influenciar uma opinão. Um pequeno objeto que é tantas vezes alvo de preconceito. E depois falamos de igualdade. Queremos igualdade entre homens e mulheres porque todos nascemos para termos os mesmos direitos. Mas depois julgamos um homem por querer usar um brinco ou uma argola. Ele é o marginal. E na mulher? É uma coisa perfeitamente normal. Ele faz a depilação e passa creme na pele? É gay. E a mulher? Coisa normal. Pois, mas o que falta entender é que o “normal” é uma coisa relativa. E quando vejo um amigo meu ser insultado por usar argolas e ter “aspeto de marginal” só consigo pensar que a aparência dele é normal. Porque é, de facto, normal a partir do momento em que cada um é livre de vestir o que quiser e fazer o que quiser do seu corpo. Mas, pelos vistos, para outras pessoas isso é anormal. E não só é anormal como é algo alvo de reprovação. Talvez seja por isso que há tantas injustiças. Porque, para tanta gente, os verdadeiros marginais (mesmo que o sejam) nunca vão ser aqueles que se vestem de acordo com a ocasião, têm o corpo como veio ao mundo e usam o cabelo perfeito. Os marginais vão ser aqueles que usam argolas nas orelhas, gastam dinheiro a fazer inúmeras tatuagens e usam roupas rasgadas e largas, mesmo que no final do dia sejam esses as melhores pessoas do mundo.

E chamam a isto igualdade? Não deveria ser chamado preconceito? A igualdade só vai existir quando deixarmos de avaliar as pessoas pela aparência que possuem ou pelos gostos que têm. A igualdade é sermos todos respeitados por aquilo que somos independentemente do estilo de vida que temos. Todos temos direito a sermos nós próprios mas, acima de tudo, todos temos o direito de não sermos julgados por sermos o que somos. A verdadeira essência da liberdade é essa: sermos o que queremos ser.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A vida não é justa, pois não? E nós, somos?

quinta-feira, outubro 06, 2016 2 Comments


Hoje, só quero que olhem bem para esta cara. Não olhar como olham para as notícias que lêem na diagonal. Mas olhar a sério, analisar cada feição e o que o olhar transmite. Esta pessoa para a qual estão a olhar já não está aqui. Não vai poder crescer, ter filhos e partilhar tantas aventuras com os seus amigos. Esta pessoa para a qual estão a olhar tinha 14 anos. Uma criança, portanto. Perante a vida, era uma criança, afinal, o que são 14 anos quando se tem uma vida pela frente? São uns míseros números numa vida sem fim. Mas esta teve fim. E teve fim porque vivemos numa sociedade que cada vez mais caminha para o abismo. A verdade é que vivemos na época dos “thug life”, do “swag” e da “vida loka”. Para quê teres uma discussão produtiva com alguém para tentar resolver as coisas quando podes simplesmente libertar toda a raiva que há em ti e espancar a pessoa em questão? É tão mais “cool”. Dá-te muito mais aquele ar de mauzão com quem ninguém se mete e que é respeitado pelo famoso círculo de amigos “rebeldes” que adora mostrar que está sempre ali para o seu amigo mais patrão que não faz mais nada pela vida a não ser vestir “Obey” e arranjar conflitos.

Agora deixando a ironia completamente de parte, apesar de não conhecer este miúdo, é com os olhos húmidos que aqui escrevo isto. Tentei calar-me mas não consegui. Não consegui porque um dia quero ser mãe e este podia ser o meu filho. Não consegui porque tenho um irmão mais novo que podia ser ele. Mas não é. E acho que é assim que muita gente pensa “não me pertence”. Mas e se pertencesse? O problema é mesmo esse. Nunca queremos saber daqueles que “não nos são nada” e fechamos os olhos. Não estamos atentos ao que os outros fazem e muito menos nos caminhos que eles seguem porque “não temos nada a ver com isso”. Mas será que não temos mesmo? Não é dever da sociedade proteger este e tantos outros jovens? Já tive 14 anos e sei que na adolescência achamos que somos os donos do mundo. Tudo o que fazemos está certo e não viramos as costas a um conflito porque “não somos cobardes” nem “meninos da mamã”. Mas também já tive 17 e sei que, nestas idades, três anos fazem toda a diferença não só a nível físico mas também mental. E não sei como é que alguém quase a atingir a maioridade não consegue usar a cabeça e distinguir o certo do errado. Porque chegar aos 18 anos é tornar-nos adultos e “Uau! Já posso tirar a carta de condução”, “Mãe, já não mandas em mim porque já sou independente” mas depois são estas as atitudes que se vêem. E morrem aqueles que tinham uma vida pela frente. Talvez um futuro promissor. Tenho a completa certeza que um dia aquele jovem se vai arrepender e o maior julgamento a que vai ter de responder vai ser a sua própria consciência. Certamente, um dia vai ser pai. O seu filho vai ter os naturais “arrufos da idade” com os colegas por causa das mil e quinhentas namoradas que vai ter durante a vida e das duas uma: ou o ensina a conversar e resolver as coisas ou ensina-lhe o que tão bem sabe, resolver as coisas usando as mãos (e não só, pelos vistos).
Neste momento, meio mundo está mais preocupado em discutir o triângulo amoroso que originou esta morte do que propriamente a morte. A namorada que andava com os dois ao mesmo tempo, o ex-namorado que matou o namorado atual, a namorada que não fez nada para ajudar o namorado e tantos rumores que correm nas famosas redes sociais que deviam servir para divulgar o caso e não para mexericos. Enquanto meio mundo discute este acontecimeto, eu limito-me a olhar para esta fotografia como vos pedi que o fizessem. Confesso que às vezes até choro. A vida não é justa, pois não? E nós, somos? Não sei se seremos. Não nos cabe a nós proteger os “Gonçalos” deste país e denunciar os “Mários”? A vítima precisa de ajuda mas o agressor também. Um jovem problemático torna-se um adulto igualmente problemático se não for ajudado/castigado por aquilo que faz erradamente. E, neste momento, acho que um castigo severo é a melhor salvação. Um castigo que ensine que ser “thug life” não é assim tão fixe. E que espancar alguém até à morte não é ser “patrão”, é destruir uma família, fazer uma mãe sofrer até ao fim da sua vida por ter perdido o seu filho. Um filho que ela deu à luz mas que um idiota qualquer lhe tirou. Não sou a favor da justiça pelas próprias mãos, mas sou a favor de que se pague por aquilo que se faz. Haja ou não arrependimento. E, por isso, só peço que se faça justiça! Não a justiça que se tem visto ao longo dos anos mas justiça a sério!
Agora que olharam bem para esta cara, como vos pedi, estejam atentos a futuros “Gonçalos” e “Rubens”. Não ignorem os jovens só porque “dão umas passas” e “têm a mania”. Jovens são jovens. Uns mais indefesos que outros, é verdade. Mas todos precisam de ser integrados pela sociedade e não serem ignorados só porque “não são o nosso estilo” ou fazem coisas que não nos agradam. Afinal, um ser humano é sempre um ser humano e ninguém merece morrer tão jovem.
A ti, Gonçalo, acredito seriamente que estejas num lugar melhor do que este sítio horrível a que chamam “sociedade”. Acredito que faças falta a muita gente aqui em baixo mas também acredito que os que amamos ficam sempre junto de nós de alguma forma. Apesar de não te ter conhecido, choro por ti como se tivesses passado pela minha vida porque é impossível ficar indiferente a uma coisa destas. Porque também tu foste um Capaz! Descansa em Paz, onde quer que estejas!

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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Querida Sofia

quinta-feira, setembro 01, 2016 3 Comments


Olá Sofia. Eu sou a Cátia. Não, não me conheces. Sou mais uma das tantas anónimas a admirar-te. Nem sei bem porque te escrevo isto mas senti-me na obrigação de o fazer, talvez porque acho que mereças ler cada palavra aqui escrita.
Sou mulher (com muito orgulho!) e não consigo sequer imaginar aquilo por que passaste. Como mulher, não me consigo imaginar sem o meu peito, sem o meu cabelo ou com a pele completamente pálida. Como mulher, também tenho medo de passar pelo que tu passaste. E como ser humano, também tenho medo de ficar doente, como todos os seres humanos têm. A verdade é que sempre tive medo e talvez por isso te admire tanto. Há uns anos, apareceu um pequeno “nódulo” no meu peito direito e, como ouvia tantas notícias sobre essa doença terrível, fiquei assustada. Corri para o hospital e, felizmente, estava tudo bem. “Faz parte da idade”, disseram-me. Mas a partir daí, temi sempre. Todos os dias fazia a apalpação com medo que estivesse tudo mal. Todos os dias pensava “e daqui a uns anos? Será que vou ter de enfrentar uma dura batalha?”. Pensamentos que não deviam estar na cabeça de uma miúda prestes a entrar na universidade e que deveria parar de pensar no futuro dessa forma. Afinal, ninguém está livre de uma coisas destas e ninguém pode adivinhar o que vai acontecer amanhã, certo? Tentei mentalizar-me que não podia fazer mais nada a não ser cuidar da minha saúde psicológica e mental e que não devia temer o futuro porque este “só a Deus pertence”, como se costuma dizer. Mas os medos apareciam de novo sempre que lia mais uma notícia de uma mulher com cancro da mama. Sim, porque de todos os tipos de cancro, este foi o que sempre me assustou mais.
Depois? Depois apareceste tu. “Como é possível a Sofia ter cancro?”, pensava eu. Depois entendi que o cancro não escolhe as suas vítimas. Ataca e pronto. Não importa se és saudável ou se tens uma vida de riscos. Ele invade, sejas tu quem fores e tenhas tu o que tiveres. E tu, querida Sofia, não foste exceção. Sei que foram meses de lágrimas e dores constantes mas também sei que vais conseguir retirar um lado positivo disto tudo e é por isso que digo que mudaste a minha forma de ver as coisas. Se antes eu temia por tudo e tinha medo do que o futuro me poderia reservar, agora estou em paz. Não temo o que possa vir daqui a dez ou vinte anos. Apenas vivo um dia de cada vez. E se algo menos bom acontecer “faço como a Sofia, sorrio para os problemas”, digo a mim mesma. E é isto que penso sempre que algo me magoa ou me dilacera. Penso em ti, querida Sofia. Penso na tua força e coragem e sorrio. E sorrio com vontade. Afinal, se tu foste capaz de enfrentar uma batalha tão difícil de uma forma tão positiva porque raio hei-de perder tempo a chorar pelos cantos? É com um sorriso, com pensamento positivo e energia que os problemas se curam. E isto aprendi contigo. E agradeço-te por mo teres ensinado.
Sei que a tua batalha chegou ao fim. Sei que as lágrimas que te escorrem pelo rosto, desta vez são de felicidade. E que bom é ver que conseguiste! Mas sabes o que é ainda melhor? Olhar para ti e nem sequer me lembrar que tiveste a doença, porque parece que não aconteceu. Talvez porque nunca deixaste que se apoderasse de ti. És um dos casos raros em que a doença não liderou. Tu mandaste nela! Não a venceste porque, na verdade, ela nunca chegou a entrar dentro de ti. Afetou-te fisicamente? Sim. Mas o mais importante não conseguiu atingir: a tua alma. Essa permaneceu sempre intacta, pura e pronta a lutar. E se hoje muitos te consideram uma guerreira, eu sou uma entre milhares de pessoas que te consideram uma inspiração. Porque mulheres com a tua força há poucas. E se hoje te dedico este texto na plataforma Capazes é porque tu mereces. Porque tu és uma Capaz, uma Capaz que representa tantas outras que, como tu, enfrentaram o mais temível dos medos. Porque todas somos Capazes, basta querermos.
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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O nudismo é uma arte

sexta-feira, agosto 26, 2016 1 Comments
Não sou tolerante quando se trata de preconceito. Não classifico este ou aquele preconceito como sendo mais ou menos grave que os restantes. Mas confesso que nos últimos dias me tenho sentido bastante irritada após ter visto alguns comentários a mulheres que usam o seu corpo para fazer aquilo que gostam.
Em primeiro lugar, não deveríamos manter-nos de boca fechada quando se trata de um corpo que não é o nosso? Porque é que nos julgamos no direito de criticar quem quer que seja pelo que faz com um corpo que é completamente seu? Nunca entendi esse vício terrível. Aliás, nunca entendi o porquê de o criticarmos ofendendo a pessoa em questão. Um claro exemplo disso foi o facto de, na noite passada, enquanto estava a consultar as minhas redes sociais, ter visto uma rapariga ser fortemente insultada por, no mundo da moda, fazer produções fotográficas completamente nua. A mesquinhice das mulheres levou-as a chamarem-na de “puta”, “porca” e a fazer comentários depreciativos. “Não tens vergonha das figuras que estás a fazer?”, “os teus pais não te deram educação?”, “isto é pornografia, devias ter vergonha!”. Mas calma, não falo do preconceito e dos comentários que vi apenas por parte das mulheres. Como é óbvio, os homens não podiam não mostrar o seu “à vontade” perante aquela fotografia, vulgarizando o corpo feminino de uma forma, no mínimo, nojenta. Tão nojenta que prefiro nem dar exemplos.
Pois, minhas senhoras e meus senhores, ao que vocês chamam de pornografia, eu chamo de arte. O nudismo é uma arte! Ser modelo nú não é nenhum crime e muito menos deve ser considerado pornografia. Pornografia seria se houvesse um conteúdo sexual por detrás daquela fotografia. Mas não há. É pura sensualidade. Deixemo-nos de ser machistas e afirmar que o corpo de uma mulher de respeito tem de andar tapado. Ter o corpo mais ou menos escondido não faz de uma mulher mais ou menos respeitável. Aliás, mostrar o corpo em nada influencia o caráter de uma mulher, ao contrário do que muita gente pensa. Uma mulher que faz uma produção fotográfica completamente nua não é uma “puta”, é uma mulher que tem amor próprio, que conhece bem o seu corpo e que tem orgulho na sensualidade que ele transmite. E não há nada melhor do que uma mulher sentir-se bem consigo mesma ao ponto de exibir toda a sua sensualidade sem qualquer pano a travá-la. O problema não está na mulher que está nua em frente a uma câmera para quem a quiser ver “naqueles preparos”, o problema está na mente pequenina das pessoas que critica uma mulher por se afirmar e por gostar de si. Não é uma má exposição, é a exposição mais bonita que pode haver. É a exposição mais realista de todas. Afinal, nós adoramos comprar aquela revista de moda onde os modelos aparecem em trajes menores porque “é bonito” e as “fotografias estão fantásticas”. E o que é que nos lá vemos? Um alguém que não é ele mesmo. Carregado de apetrechos que não o caraterizam, de maquilhagem que disfarça as marcas que a vida deixa na nossa pele e falsas curvas num corpo outrora liso. Na fotografia a nú, o corpo é exposto na sua totalidade. Sem pedaços de pele a tapar qualquer zona. Nós não nascemos por inteiro? Não nascemos despidos dos pés à cabeça? Então porque é que temos de ser tão púdicos em relação ao nosso corpo? Qual a diferença entre fotografar de lingerie ou sem nada? Ah, pois é, a lingerie tapa as “partes proibídas”. Mas porque é que têm de haver zonas proibídas no nosso corpo? O corpo humano é o corpo humano e todos os órgãos fazem parte dele. E não me venham com tretas de que “mostrar isto é mais pornográfico do que isto”. Não culpem uma modelo que se despe completamente porque o vosso marido ficou a babar para cima dela por estar completamente nua. Não tem nada a ver com o que ela está ou não a mostrar, afinal, há sorrisos muito mais sexy’s do que um peito grande e coxas bem mais interessantes do que um rabo empinado. Se o choque se instala quando uma mulher mostra a zona púbica ou o peito é porque a sociedade não está habituada a lidar com o corpo humano da forma que deveria estar.

Isto para vos dizer que é abominável existir quem critique a arte fotográfica só porque o ou a modelo se expõe a nú. Seria muito mais correto admirarmos quem o faz por mostrar o verdadeiro propósito do corpo humano: a sensualidade nua e crua. Porque quem o faz não se está a vender ou a praticar qualquer ato sexual em público e muito menos interfere com a liberdade dos restantes. Quem o faz exprime o verdadeiro propósito da arte. Tal como o músico, o ator ou o pintor. E se há coisa que merece mais valorização neste país é a arte. 

Texto publicado em Capazes.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Somos todos bullying

sexta-feira, agosto 19, 2016 3 Comments
bullying está em todo o lado e cada vez mais somos alertados para o tema. Tão alertados que chega a cansar ouvir tantas vezes essa palavra. Mas a questão é que a maior parte da sociedade continua a ignorar este problema.
A verdade é que a maior parte das pessoas se estão nas tintas – e desculpem-me a expressão – para o bullying. Cada um que resolva os seus problemas… é assim que se vai vivendo esta vida. Mas a vida é uma autêntica merda se só nos preocuparmos connosco. Sim, leram bem, uma merda. Mas que raio andamos nós aqui a fazer se só olhamos para o nosso próprio umbigo e nos estamos a borrifar para a vizinha do lado que todos os dias leva porrada do marido ou para o gato que foi abandonado à sua sorte e está há uma semana à nossa porta cheio de fome e frio? E falamos de tudo. Da crise, do bullying, da violência doméstica, do abandono animal e do raio que o parta, mas não fazemos nada. Ah! esperem, partilhamos duas ou três imagens no facebook e fazemos o mesmo que eu estou a fazer agora: escrevemos uns textos bonitos e tal para dizermos que nos preocupamos e no dia seguinte voltamos às nossas vidas cruéis e esquecemo-nos dos problemas dos outros. Sim, todos temos problemas, mas é por isso mesmo que nos devemos preocupar com os dos outros. Porque talvez seja a ajudarmo-nos mutuamente que os problemas começam a desaparecer.
Mas, tudo bem, sejamos egoístas. E vamos então pensar só em nós nesta temática do bullying. Não nos importamos e não fazemos nada porque “é com os outros e eles que se entendam” mas nunca paramos para pensar que todos nós já sofremosbullying em algum momento das nossas vidas. Nem que seja no baile de finalistas quando aquela rapariga disse que o vestido te ficava mal porque és gorda ou quando te chamaram burra por teres tirado negativa a matemática. Já sofreste bullyingquando os teus colegas te puseram de parte na turma por teres opiniões diferentes ou por não gostares das mesmas coisas que eles, já sofreste bullying quando gozaram com a forma como te vestias ou quando te disseram que estás tão magra que mais pareces uma caveira. Já sofreste bullying quando te disseram que com esse feitio nunca ias ter namorado. Quando te fizeram chorar horas e horas fechada no quarto. Quando te fizeram sentir como se fosses uma merda e não tivesses mais vontade de viver.
O problema das pessoas é que acham que o bullying é bater, dar pontapés, socos e fazer-te lamber as escadas da escola. Mas o bullying é apenas um nome. Um nome que carateriza tudo o que de pior vamos vivendo ao longo da vida. Aquele par de estalos que levámos da rapariga mais velha da escola só porque o nosso cabelo era mais bonito que o dela, os nomes que nos chamaram na aula de educação física porque não tínhamos jeito para jogar futebol ou os risos de gozo dos nossos colegas porque ouvimos músicas diferentes. A verdade é que o bullying nunca vai acabar enquanto não aprendermos a respeitar-nos. Talvez porque todos fazemos um bocadinho de bullying de vez em quando. Fazemos bullying quando nos rimos do vizinho do lado que vomita de bêbado ao invés de o irmos ajudar, fazemos bullyingquando dizemos que os One Direction e Justin Bieber são artistas para “pitas de 12 anos”, fazemos bullying quando chamamos mil e um nomes ao nosso professor por não nos ter dado a nota que queríamos, fazemos bullying cada vez que olhamos de cima abaixo para a nossa colega do lado e pensamos “que gorda!” ou “que feia!”. Obullying não é um problema só de “pessoas mal formadas”. O bullying está dentro de todos nós, simplesmente, há quem saiba destruí-lo e depois há quem o use para se sentir bem, maltratando os outros. Esses outros são aqueles que o guardam dentro de si e se negam a recorrer a ele. Afinal, quando alguém nos diz “és gorda”, nós podíamos simplesmente responder “e tu és esquelética” mas preferimos sofrer e chorar ao olharmo-nos ao espelho. Porque escolhemos não ser como eles. Porque acreditamos no que nos dizem ao invés de atacar de volta. Acreditamos neles porque não está na nossa natureza magoar e então preferimos ser magoados. E se todos fossemos assim? Se todos deixássemos a faceta de bully que temos dentro de nós e nos preocupássemos em ajudar aqueles que sofrem? É por isto que eu acho que não é só quem sofre de bullying que precisa de ajuda. Quem o pratica precisa tanto ou ainda mais dessa ajuda. Porque entre dois caminhos – o bom e o mau – escolheram o mau e isso precisa ser retificado. Mas nós mal nos preocupamos com quem sofre e muito menos com quem pratica o mal. Talvez devêssemos começar a olhar mais para o lado.
Uma vez, a minha professora de Filosofia disse que temos de encarar o outro como um outro “eu”. Esta frase nunca mais saiu da minha cabeça e lembro-me dela todos os dias, sem excepção. Talvez seja mesmo disso que todos precisam. De uma aula de filosofia, de aprender a ver cada ser humano como “um outro eu” que merece as mesmas oportunidades, a mesma felicidade e o mesmo direito à vida. Às vezes está tudo à distância de uma conversa. Da conversa certa. Com uma simples conversa nós conseguíamos ajudar imensa gente. Mas, infelizmente, estamos todos demasiado ocupados com a nossa vida. Tão ocupados que nos esquecemos de que o mundo é uma zona de coexistência e que só evolui se trabalharmos uns com os outros.
Publicado em Capazes.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Eu fui capaz, agora é a tua vez!

segunda-feira, junho 27, 2016 8 Comments
Devia ter uns dez anos quando comecei a sonhar em ser adulta e encontrar aquilo que todos queremos... O amor. Anos mais tarde, ele apareceu, mas as coisas não são um conto de fadas como parecem quando somos crianças...
Como todas as crianças, cresci. Tornei-me naquilo que sempre quis ser: uma rapariga determinada, com vontade de viver e de ser feliz. Sempre lutei por aquilo que queria e nunca deixei que alguém me cortasse as asas, mas há coisas que nós não conseguimos controlar. Chegou o derradeiro dia. O dia em que somos atacados pelo “cupido”, pelas “borboletas”, ou pelo que quer que seja que lhe queiram chamar. Já me tinham avisado que o amor é arrebatador, faz-nos ficar sem ar e leva-nos a ser pessoas “idiotas”, no sentido mais positivo da palavra. O que nunca me disseram foi que o amor cega, talvez porque isso eu teria de vir a aprender sozinha.
Já adulta, ali estava eu. A viver aquilo que sonhava desde criança. Uma história de amor sem limites, com o meu próprio princípe encantado e substituindo o cavalo branco por palavras e promessas futuras. Mas as promessas são só isso, promessas. E porra, nunca me tinham dito que da mesma forma que o amor chega sem avisar, também pode partir sem se despedir. Senti o pesadelo que tantas outras mulheres já tinham sentido e que eu nunca pensei sentir, afinal, eu era uma sortuda e nós íamos ser felizes para sempre, não era? Não, não era. E no fim de contas, os sorrisos transformaram-se em lágrimas consecutivas. Aquela criança que eu tinha sido nunca tinha chorado tanto, nem quando fazia birra por não poder ter aquele brinquedo que sempre quis. Este choro era diferente, sabia à primeira desilusão. A primeira. Exato, a primeira. Aquela da qual todos falam mas da qual todos achamos conseguir escapar. Mas não conseguimos. Durante meses, eu não fui capaz. Sofria em silêncio, fechada no quarto e isolada do mundo. As minhas noites, que antes eram preenchidas por jogos em família ou sessões de cinema, passaram a ser noites sombrias onde as lágrimas teimavam em verter desde o cair da noite até ao dia seguinte. E isto foi-se prolongando. Não durante dias mas durante meses. Meses a fio de dor constante e de um sofrimento que nunca ia ter fim. Ou, pelo menos, achava eu.
Mas como costumam dizer “depois da tempestade vem a bonança”, certo? É bem verdade. Um dia, após ver aquele que tinha sido a causa do meu sofrimento feliz e cheio de vontade de viver sem mim, decidi que tinha de ser CAPAZ de ultrapassar esta fase menos má. Afinal o amor não mata, não é? Ele ensina a viver. E ensinou. Sozinha, consegui deixar o meu quarto e atravessar o corredor para a sala onde a minha família estava. Troquei as lágrimas por sorrisos que, ao início, eram falsos mas que, com o passar do tempo, se tornaram verdadeiros. E aqueles meses todos de dor passaram a ser uma aprendizagem. Uma aprendizagem que me mostrou que eu sou capaz! Sou capaz de enfrentar esta e tantas outras desilusões sozinha. Sou capaz de tudo! Porque com força, garra e luta, tudo é possível e tudo se ultrapassa. E não, não deixei de acreditar no amor. Ao contrário do que uma pessoa magoada normalmente pensa, eu nunca achei que o amor fosse “uma merda”, porque não é. O amor é a coisa mais bonita que existe, principalmente o amor que sentimos por nós próprios.
Um dia alguém me disse que o meu primeiro desgosto amoroso me iria trazer uma lição qualquer que, só quando a dor passasse, eu iria entender. E, hoje, acho que já a consegui descobrir. Talvez eu tivesse de aprender a amar-me incondicionalmente e não ser egoísta ao ponto de pedir a alguém que me amasse por mim. Hoje, com vinte e um anos, afirmo com todo o orgulho que eu me amo! Amo-me como nunca me amei antes e cada dia me amo mais. Por isso não pensem que essa dor nunca vai passar, porque vai. E sabem porquê? Porque vocês são Capazes!

Publicado em: Capazes


Até logo, Diamond!

Obrigada pela visita!
Volta Sempre :)