Mostrar mensagens com a etiqueta Festival das Francesinhas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Festival das Francesinhas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Fingertips: «Temos estado a viver um dia de cada vez»

quarta-feira, agosto 15, 2018 2 Comments

O último dia do Festival das Francesinhas, em Peso da Régua, ficou marcado pela atuação dos Fingertips. O ano de 2018 marca o regresso de Zé Manel à banda que está de volta aos palcos para comemorar 15 anos de carreira.
Energia, emoção e união foram as palavras de ordem do concerto que teve início por volta das 22h30. Durante certa de 90 min, foram recordados grandes êxitos que marcaram estes 15 anos de Fingertips, incluindo “Picture Of My Own” (2003), “Cause To Love You” (2006) e “Melancholic Ballad” (2003). Houve ainda espaço para ouvir o primeiro original de 2018: “My Everyday”, cuja letra o público já sabe decor.
Horas antes do concerto, o Jornal Mira Online esteve à conversa com Zé Manel sobre o seu regresso à banda e a influência que a música assume na união entre todos.

Fotografia gentilmente cedida por: Fingertips

Estão prestes a atuar no Festival das Francesinhas. Entusiasmados para logo à noite?

Claro que sim. Tem sido um verão simpático para nós e estamos muito entusiasmados. Não só porque estamos a fazer quinze anos de história e este é o ano que marca a nossa reunião, mas também porque está a ser um verão muito gratificante.

Como referiste, o ano de 2018 marca o teu regresso aos Fingertips. A música pode ser sinónimo de união?
Tenho a certeza. Acho que a música pode ser sinónimo de muitas coisas. Pode ser a nossa terapia, o nosso grande amor, pode ser sinónimo de intervenção política, de união entre as pessoas... E acho que foi, essencialmente, a música que nos juntou. Acho que foi o nosso legado, aquilo que deixámos para trás e o carinho que as pessoas continuaram sempre a dar-nos, mesmo estando separados durante este tempo todo, que fez com que nos fizesse sentido voltar a tocar estas músicas juntos.

E tu tinhas essa vontade de voltar?
Sendo sincero, acho que da parte de todos nós, há um ano, isto era impossível. Nenhum de nós imaginaria sequer que isto poderia voltar a acontecer. Tanto é que eu estou a gravar o meu terceiro disco de originais a solo e, de repente, quando surgiu esta hipótese de contacto, eu tive de reestruturar toda a minha vida para fazer esta reunião. Mas só neste ano é que faria sentido, porque só este ano fazemos quinze anos de história e foi o pretexto ideal para nos reunirmos de novo.

Como é que surgiu essa hipótese de se voltarem a reunir?
Foi uma coisa muito casual, porque o baterista de Fingertips também continuou sempre a trabalhar comigo. E ele, tal como eu, esteve no processo inicial da banda e, entretanto, decidiu acompanhar-me também a solo e foi através do Jorge (baterista) que foi feito o contacto. O nosso manager falou com ele para saber se haveria interesse e disponibilidade para assinalarmos os nossos quinze anos de carreira. E quando nos encontrámos todos no estúdio parecia que tinha sido ontem. Foi como voltar a casa.

Foi como se não se tivessem separado...
Foi. Sem dúvida. Parece que foi ontem. Parece quando tu sais de casa dos teus pais para estudar fora e, de repente, voltas a casa e está tudo igual (risos).

Já há muitas bandas que começaram por cantar somente em inglês e que, atualmente, já inserem o português no seu reportório. A solo, tu também já cantas em português. Os Fingertips vão continuar a cantar sempre em inglês?
Na Arte, o futuro deve estar sempre em aberto. Aliás, eu acho que nenhum artista deve pôr de parte a hipótese de abraçar outros estilos musicais ou outros idiomas se a Arte assim o justificar. Neste momento, os Fingertips querem manter a sua identidade até porque estamos a celebrar quinze anos de história e as pessoas que gostam do nosso trabalho sempre nos ouviram em inglês. No meu projeto pessoal, eu comecei também a cantar alguns temas em português e, aliás, o meu terceiro disco a solo é o primeiro integralmente em português.

O facto de teres trabalhado tanto tempo sozinho pode ajudar-te a acrescentar alguma coisa de novo aos Fingertips?
Tenho a certeza. Tal como o facto de eles terem tido outras experiências e terem trabalhado com outras pessoas. Nós decidimos seguir caminhos diferentes em 2009 e estamos a juntar-nos novamente em 2018. Portanto, são alguns anos separados em que nenhum de nós parou. Durante estes anos tivemos outros desafios e claro que isso nos enriquece enquanto seres humanos e profissionais. Acho que, hoje em dia, trazemos muito mais riqueza para a banda. Eu sinto isso mesmo em termos artísticos. Em 2018, os Fingertips dão concertos muito melhores que em 2009 e isso também é fruto do nosso trabalho individual.

Referiste há pouco que estão a comemorar os vossos quinze anos de carreira. Ainda há músicas que vocês têm mesmo de cantar em todos os concertos mesmo tendo passado já quinze anos?
Claro que sim. Aliás, eu acho que muito ingrata é a banda que não tocar os êxitos pela qual é conhecida. Nós devemos isso ao público. Se nos fez sentido reunirmo-nos tanto tempo depois é precisamente porque existem esses êxitos que continuam na memória das pessoas e que elas continuam a querer ouvir.

A imagem também é importante?
Geralmente, sim. Quando estamos em cima do palco, quando damos uma entrevista... Claro que sim. Como em qualquer profissão, eu acho que um artista tem de distinguir a sua vida pessoal do seu trabalho. E quando estou em cima do palco estou a trabalhar e tenho a minha roupa de trabalho.

Daqui para a frente, o que nos vão dar os Fingertips?
Nós tentamos levar um dia de cada vez, porque foi uma banda que nos marcou muito a todos. Foi com eles que eu percebi que queria isto para a minha vida. Foi juntos que atingimos os nossos picos de sucesso. Mas quando nos separámos foi uma fase de muita saturação em que, realmente, precisávamos de nos descobrir de outras formas e abraçar outros desafios porque já não nos estávamos a fazer bem uns aos outros. Felizmente, nenhum de nós parou. E portanto, é como te disse, há um ano, esta reunião era impossível. Agora, neste momento que está a acontecer, temos estado a digerir o resultado. Temos estado a viver um dia de cada vez. Há da nossa parte, realmente, uma intenção de fazer mais com os Fingertips. Para o ano, tenho de me dedicar ao disco que deixei parado que está quase a sair. Mas aquilo que eu gostava era de conseguir conciliar os projetos porque são-me os dois igualmente importantes, têm os dois o seu público e acho que, em termos artísticos, são os dois cada vez mais diferentes.

Achas que o facto de se reunirem pode, de facto, unir os vossos diferentes públicos?
Acho que sim. Quando saí da banda, houve fãs da banda que continuaram a seguir-me e outros nem tanto. Mas todos estes anos depois, muitos dos fãs que acompanham o trabalho de Darko começaram a vir também aos concertos dos Fingertips. Muitos deles estão quase como a redescobrir a banda agora. Ver que as pessoas transitam de um projeto para o outro é muito interessante. E, lá está, a música une toda a gente.

Se fosse tirada uma fotografia dos Fingertips neste preciso momento, o que seria captado?
De mim, em dias de concerto, a fotografia que vão apanhar será sempre deitado a dormir (risos). Mas, se nos tirassem uma fotografia a todos neste momento, acho que iam encontrar o que não encontrariam quando nós trabalhámos juntos no passado. No passado, encontrariam um conjunto de jovens que estavam a viver um sonho de maneiras muito egoístas. Neste momento, acho que encontram um grupo de semi-cotas muito divertidos e muito mais unidos (risos). E também muito mais experientes e profissionais. No fundo, a viver isto de uma forma muito mais relaxante e sem pressão.




Publicado em: Jornal Mira Online


terça-feira, 14 de agosto de 2018

HMB: «O nosso grande objetivo é fazer com que o público entre nesse estado de espírito de HMB»

terça-feira, agosto 14, 2018 2 Comments

A terceira noite do Festival das Francesinhas, em Peso da Régua, ficou marcada pela atuação dos HMB. A banda composta por Héber Marques (vocalista), Fred Martinho (guitarrista), Daniel Lima (teclista), Joel Silva (baterista) e Joel Xavier (baixista), deixou toda a energia em palco e partilhou o mesmo estado de espírito que o público. O calor não foi impedimento para a boa disposição e alegria.
Horas antes do concerto, Héber Marques foi o porta-voz de uma entrevista concedida ao Jornal Mira Online. A música, o amor e o percurso dos HMB foram os temas abordados ao longo da conversa.

Fotografia gentilmente cedida pelos HMB

É a primeira vez que vão atuar em Peso da Régua. Entusiasmados para esta noite?

Sim, é a primeira vez que vamos atuar na Régua e, se calhar, a primeira vez que vamos atuar tão perto do Douro. Estamos super entusiasmados!

Vocês costumam adaptar o concerto à cidade e ao tipo de público para o qual atuam ou seguem sempre a mesma estrutura?
Nós temos uma mesma linha. Temos um estado de espírito e gostamos de levar esse estado de espírito para qualquer que seja o palco. O nosso grande objetivo é fazer com que o público entre nesse estado de espírito de HMB. Tentamos influenciá-los mais a eles do que eles a nós. E isso é difícil (risos).

Como é que é a sensação de ter um Globo de Ouro nas mãos?
A primeira vez, eu tinha a certeza que íamos ganhar o de Melhor Canção, com “O Amor é Assim”. Da segunda vez, achava que não íamos ganhar. Então são duas sensações completamente diferentes. Uma em que pensámos “merecíamos mesmo isto” e, na verdade, tínhamos um discurso já preparado. Mas a sensação de segurar o Globo de Ouro é ótima e quando não se está à espera é ainda melhor (risos).

E sentem uma pressão maior depois de terem ganho cada um dos Globos?
Não, de todo. Existe uma pressão, não por causa do Globo, tem a ver mais com uma pressão de superação. A verdade é que fazemos este ano onze anos e precisamos de nos superar musicalmente, evoluir e fazer com que o público evolua conosco. Também não convém nós evoluirmos sozinhos, mas que o nosso público nos acompanhe. Isso também é uma tarefa que temos em mente. Basicamente, acho que essa é a parte difícil. O Globo funciona apenas como uma constatação do bom trabalho que tem sido feito.

Vocês já atuaram no Campo Pequeno e no Coliseu do Porto. Ambas salas grandes. Na tua opinião, o que é que vocês têm que capta o público ao ponto de encher salas como estas?
Honestamente, eu acho que o ser humano se liga a uma boa história. E acho que os HMB têm boas histórias nas canções. Na verdade, são vários fatores mas eu acho que isso tem muita importância. Há muitos cantores que cantam bem, muitos artistas que são bons artistas, mas depois faltam canções que se liguem com o público. Os HMB têm a benção de ter isso. Temos uma banda com boa vibe, bons músicos e eu também não canto mal (risos).

Numa época em que se produz tanta música e, muitas vezes, muito parecida, que outros fatores consideras que os HMB têm que atraem tanto o público?
HMB não é parecido com nada. Mas acho que o facto de não sermos pessoas feias também ajuda (risos). O facto de sermos pessoas bem dispostas, também ajuda. Somos pessoas porreiras, é verdade, e digo isto sem modéstia nenhuma e isso nota-se também em cima do palco. E acabamos por agradar a um núcleo bastante vasto. Obviamente, não chegamos a toda a gente, mas conseguimos chegar ao grande público. Mas acho que, primeiro, começa nas canções.

Achas que é importante as canções chegarem ao coração das pessoas?
É importantíssimo. Eu acho que, seja em que género for, quando a canção é boa, ela não só alimenta a pessoa naquele momento como a segue em qualquer estágio de vida. As grandes canções da tua vida, tu vais sempre lembrar.

E achas que as pessoas se ligam mais às canções de amor?
Claro que sim. Nós temos uma sede insaciável de romance. Nós queremos que as coisas acabem bem sempre. E, na verdade, o amor está ligado a tudo. O amor pela comida, o amor pela mãe, pelo parceiro, pelos animais,... O amor é um denominador comum em todas as áreas. O amor que os HMB têm pelo que fazem também ajuda.

Os HMB existem, enquanto banda, desde 2007. Na tua opinião, o que é que mudou no panorama da música portuguesa desde então?
Muita coisa. O leque de artistas aumentou. Acho que, nestes últimos dez anos, houve um boom da música portuguesa em vários géneros. Obviamente que há estilos de música, como o hip hop, que têm uma vida própria, mas mesmo o hip hop conseguiu entrar mais no mainstream do que antigamente. Acho que a música portuguesa está bem de saúde. O espaço não é grande, mas todos acabam por ter alguma oportunidade.

O que é que te Sabe a Pouco?
A piscina. Antes de vir para aqui fazer som, estava ótima e eu tive de me vir embora. Soube muito a pouco (risos).

Se pudesses escolher o teu Dia D, qual seria?
Vários dias D. O meu casamento, o nascimento dos meus filhos, o primeiro Globo de Ouro, o Coliseu, o Campo Pequeno.. Um momento que não foi televisionado: nós estivemos num almoço que um amigo preparou para nós e foi maravilhoso e esse dia vai ficar na minha mente para sempre, por isso, foi um dia D.

Qual é o teu Feeling em relação a esta noite?
Eu acho que estão reunidas as condições necessárias para haver festa aqui. Normalmente, quando eu entro em palco pergunto às pessoas se estão prontas para festa. E é esse o meu feeling em relação a esta noite: festa.

Fotografia gentilmente cedida pelos HMB


 Publicado em Jornal Mira Online



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Mundo Segundo: «Eu sou só eu e não tento seguir uma tendência»

segunda-feira, agosto 13, 2018 1 Comments

Edmundo Silva, mais conhecido por Mundo Segundo, é, atualmente, um dos nomes mais incontornáveis do hip hop português. No passado dia 3 de agosto, deixou todas as suas palavras no palco do Festival das Francesinhas, em Peso da Régua.
“Margens do Douro”, “Era uma vez” e “Nada dura para sempre” foram algumas das músicas que fizeram o público reguense vibrar. Na companhia de Maze e Macaia, o artista gaiense marcou presença na segunda noite do festival num concerto que agradou a todas as faixas etárias.
Horas antes do concerto, Mundo Segundo deu uma entrevista ao Jornal Mira Online, onde falou um pouco do seu percurso profissional e artístico.



Fotografia: André Henriques ©Deck97


Costumas adaptar os teus concertos ao tipo de público que tens à frente ou à cidade a que vais atuar?
Há um conjunto de músicas que são a espinha dorsal do concerto. Quando é um público especificamente só de hip hop, por exemplo, o concerto leva algumas músicas para além das de um concerto que não é só para pessoas dessa cultura. No fundo, os concertos divergem ligeiramente consoante o público, mas há uma espinha dorsal que reside em todos os concertos.

Referiste diversas vezes que começaste a fazer rap devido a uma perda que tiveste na tua vida. É mais fácil expressar-nos através da escrita? Achas que isso é uma coisa comum a todos os músicos?
Sim, acho que sim. No meu caso, eu era um adolescente muito introspetivo, não era muito de conversar sobre os problemas que tinha e as palavras ajudaram-me a exteriorizar e a aliviar-me um pouco através da poesia.

Acabas por exteriorizar coisas mas, ao mesmo tempo, também chegas mais facilmente ao coração das pessoas que também já enfrentaram situações semelhantes?
Sim. As experiências são comuns a todos os seres humanos. Em alturas diferentes da vida, todos passamos mais ou menos pelo mesmo com alguma nuance consoante as vidas que cada um leva. Mas, sem dúvida, tudo o que são sentimentos e experiências atinge muito mais rápido as pessoas que se sentem identificadas.

Ao longo destes 20 anos de carreira notas uma diferença positiva na forma como as pessoas recebem o hip hop?
Sim, sem dúvida. Quando comecei éramos, como se costuma dizer, “meia dúzia de gatos pingados” e, hoje em dia, a qualquer lado que vás ouve-se hip hop. Mesmo na terra mais interior do país de certeza que há duas ou três pessoas que fazem e ouvem hip hop. E, por exemplo, há uns quinze anos atrás tu tinhas dois ou três sítios que abriam as portas ao hip hop. Hoje, o hip hop está em todo o lado: nos festivais, nas festas da terra. Por isso, sim, existe uma grande diferença, assim como no número de pessoas que o ouvem que é muito maior.

Porque é que achas que, hoje em dia, as pessoas são mais recetivas ao hip hop?
Sem presunção, eu acho que a culpa é nossa. Nós fomos desbravando o caminho, fazendo com que as pessoas percebessem que fazer rap na língua de Camões era credível e acho que isso foi um passo importante também para a música portuguesa. Porque o hip hop feito em português reavivou a língua portuguesa e, hoje, tu vês muitos grupos de rock que, se calhar, estavam a cantar em inglês e agora já cantam em português e eu sei que isso foi 90% culpa do hip hop. Acho que o facto de cantarmos em português faz com que as pessoas respeitem mais o hip hop.


O rap é um estilo muito característico. A nível mais técnico, que cuidados tens com a voz?
Há dez anos não tinha cuidado nenhum (risos). Fumava muito, dormia pouco... Hoje em dia, tenho alguns cuidados. Por exemplo, não beber coisas frescas, não apanhar frio, dormir bem, porque a voz precisa de descansar. Aquecer um pouco antes de entrar em palco. É preciso sempre ter algum cuidado.

Tu já trabalhaste com os Dealema e, entretanto, em 2006, lanças o teu álbum individual. Aprendes mais a trabalhar sozinho ou em equipa?
É diferente. Num projeto a solo, tu és a única pessoa que conduz. Num projeto com mais pessoas és só um pedaço do motor, digamos assim. E eu tanto sei trabalhar sozinho como ser parte de uma equipa. Adapto-me bem aos estilos e métodos de trabalho das outras pessoas, mas são experiências totalmente diferentes. Gosto muito das duas.

Numa época em que se produz tanta música, na tua opinião, o que é que tu tens que faz de ti um dos nomes mais incontornáveis do hip hop português?
Acho que não tenho nada de mais especial que os outros. Acho que a única diferença, se calhar, é que eu não tento ser ninguém que não sou. Eu sou só eu e não tento seguir uma tendência. Desde o início, sempre tentei definir o meu estilo, seguir a minha linha, os meus ideais e viver a minha realidade. Hoje em dia, há muitas pessoas que vivem de uma realidade inventada. E eu acho que o princípio de seres original é seres tu próprio e não teres que querer ser igual para seres aceite, porque esse é o princípio de marcar a diferença. O “seres tu” é o mais importante neste meio.

Ou seja, enquanto produzes a tua música não pensas tanto no que é que as pessoas querem ouvir mas no que é teu e no que queres transmitir...
Sim. Desde o início, e até hoje, eu faço música para mim. Por acaso tive sorte porque o resto das pessoas gostaram. Mas sempre que vou para o estúdio e vou escrever alguma coisa e produzir, eu produzo para o meu gosto e não porque alguém vai gostar. Se fores uma pessoa que tem conhecimentos e que percebe a arte, a tua auto-crítica e o filtrares o que achas que é mau e bom  já te dá um certo nível. Acho que é importante seres tu próprio a filtrar o que é que é bom para ti e, depois, os outros gostarem, ainda melhor (risos).

Qual é a tua maior “Obsessão”?
Criar. Ser criativo.

Consideras-te um “Anjo ou Demónio”?
Considero-me os dois (risos).

O que é que “Tu Não Sabes”?
Se serei sempre criativo.

Depois de Mundo Segundo, há ainda espaço para HMB e Fingertips no festival que decorre de 2 a 5 de agosto.




Publicado em: Jornal Mira Online


domingo, 16 de agosto de 2015

«Vou ser sempre lembrado como o fulano do E Depois do Adeus do 25 de Abril”

domingo, agosto 16, 2015 5 Comments
Com 53 anos de carreira, Paulo de Carvalho dispensa apresentações. Há quem lhe chame “A Voz” ou “Sinatra português”, nomes que ele dispensa. Na noite de 9 de agosto, o intérprete da célebre canção “E depois do adeus”, alegrou a noite em Peso da Régua e cantou, a par com o público, temas como “Nini dos meus 15 anos”, “Os meninos do Huambo” e até alguns fados nossos conhecidos – “Lisboa menina e moça” e “Os Putos” foram dois deles. Eu e a minha colega Joana Veríssimo, do blog Upside Down, estivemos à conversa com o cantor, que nos falou sobre a Revolução de Abril, os seus projetos futuros e a sua opinião acerca do panorama da música portuguesa.









Paulo durante o concerto 



 
Joel Silva na bateria

 
Victor Zamora nas teclas


Leo Espinosa no baixo


 
Tiago Oliveira na guitarra




Qual é a sensação de ser o intérprete de uma das senhas da Revolução dos Cravos?
Eu já disse isto várias vezes, vou-me repetir, mas de qualquer forma eu não sabia, foi um acaso. Se estou na História – e acho que sim, pelo menos já se tem falado disso muitas vezes e normalmente até sou conhecido muito pelo “E depois do adeus”, de 24 para 25 de Abril lá estou eu a cantar o “E depois do adeus”, dá um bocado a sensação de que no que me diz respeito em termos artísticos não há vida para além dessa música, quando eu continuo a cantar, a fazer músicas e discos – eu não sabia. Portanto, por um lado honra-me muito, mas é um acaso, não contribuí para isso a não ser por ter cantado como cantei uma canção. Quem fez com que a canção servisse como primeira senha do 25 de Abril não me disse nada, fui apanhado de surpresa. De qualquer forma, costumo sempre dizer isto por uma questão de justiça, se há um cantor – ele e a obra – que devem ficar ligados ao 25 de Abril é o José Afonso, logicamente.



Quais são os seus projetos futuros?
É muito difícil ter projetos futuros em Portugal neste momento, seja em que campo for. Os meus é continuar a fazer música, não necessariamente discos porque os discos além de serem difíceis de gravar são mais difíceis ainda de vender, mas há outros meios de divulgação das músicas que fazemos. As redes sociais servem para isso e é por aí que eu penso que vou entrar, ando a aprender com a gente mais nova. Continuo a fazer música, hoje cantei aqui uma por exemplo, e os projetos são continuar nesta vida a fazer música, tentando ter capacidade para perceber quando é que não tenho mais capacidades para cantar como ainda estou a cantar, porque acho que estou a fazer bem o meu trabalho, portanto ainda consigo fazê-lo. Quando eu achar que estou cansado ou que estou farto, ou que não estou a render a mesma coisa, epá vou-me embora e não chateio mais ninguém.



Qual o papel que a música representa na sua vida?
Eu costumo dizer, meio a brincar, que é assim: há 53 anos que eu tenho trabalho, nunca tive emprego. O meu trabalho é a música. Por isso, à parte de servir para me “lavar” de muita coisa que me rodeia, é aquilo que eu gosto de fazer, portanto é um papel importantíssimo.



Sente-se afastado do panorama atual da música portuguesa?
Não, não sinto e vocês tiveram a oportunidade de ver se viram o espetáculo. O problema está na informação que é tão intensa hoje em dia, que acaba por desinformar, em meu entender. Por outro lado, acontece que há meios, para quem se quer servir deles ou para quem tem possibilidades de se servir deles – estou a falar da televisão, da rádio, dos jornais – em que as notícias são pagas e é por isso que o público conhece mais uns artistas do que outros. De um modo geral, o público conhece artistas que duram um ou dois anos, porque têm uma obra de nada, têm uma cantiga ou duas provavelmente até boas, não digo que não, mas são pouco para fazer um espetáculo ou para durarem, duram um ano ou dois e depois acabam. E cada ano há uma moda, há uns que estão na moda. Eu não tenho nada contra isso porque eu já comecei também, já estive um pouco nessa posição, o que me preocupa e aquilo por que eu luto é que, se for possível, todos nós tenhamos as mesmas oportunidades para mostrarmos o que estamos a fazer.


Que retrato traça da música nacional?
Eu sei que se faz muito boa música, mas lá está, será aquela que nós conhecemos, de um modo geral? Alguma é, felizmente, alguma nós vamos conhecendo. Faz-se muito boa música em Portugal, o problema tem a ver com a divulgação ou a falta de divulgação dessa música em partes iguais, igualmente para todos. Mas faz-se muito boa música em Portugal, de diversíssimos géneros, continua-se a fazer muito boa música popular portuguesa, a canção normal, rock, agora até o rap. Há muito boa música em Portugal – e projetos novos, atenção. Eu próprio fico muito admirado às vezes quando conheço alguém que já devia ter conhecido, porque não me deram a conhecer, a mim, ao público. É preciso entrar nesta onda, não sei como é que lhe hei de chamar, como é que se entra não sei, daí eu continuar a dizer – e não prolongo mais a resposta a esta vossa pergunta – que livrem-se os que estão a começar agora de pensar que o problema é um problema deles, ou seja, que estão a começar e precisam que lhes deem a mão – não é. O problema é nosso, dos mais velhos, e é deles também, é um problema de dificuldade de divulgação do trabalho que estamos a fazer. Portanto, é igual para os dois. Não pensem que nós, os mais velhos, temos a vida mais facilitada, porque não temos nada.



Quais são as suas influências musicais?
As minhas influências musicais são da música negra norte-americana. Depois fui aprendendo a ouvir música e hoje em dia posso dizer que 90% da música que eu ouço é instrumental e está muito naquela área da música étnica, mas com improvisação. Quando se fala em improvisação, muita gente chama-lhe jazz, mas eu não sei o que é o jazz. Enquanto que a música étnica que pode vir de África, daqui ao lado do flamenco, que vem da música portuguesa também tocada por alguns dos meus companheiros de profissão, mas que tenha improvisação, ou seja, que aí sim se pareça com aquilo que nós temos como ideia do jazz.

Como gostaria de ser relembrado?
Epá não estou nada preocupado com isso. Já percebi que para a falta de informação, para a falta de cultura das pessoas que também não a procuram – e falo concretamente do público – vou ser sempre lembrado como o fulano do “E depois do adeus” do 25 de Abril. Tive essa sorte, ou esse azar, isso agora deixo ao cuidado de qualquer um. Não estou preocupado com isso, estou preocupado, isso sim, em cada espetáculo que faço com os meus músicos, de quem gosto, que as coisas me saiam bem em cima do palco, especialmente para nós, porque se nos saírem bem as pessoas sentem que as coisas estão a correr bem. E pronto, a minha satisfação pessoal é cada vez o que mais me interessa – é um bocadinho egoísta aquilo que estou a dizer, mas pronto.


Resta-me agradecer ao Paulo de Carvalho pela disponibilidade em responder às nossas questões.
Em baixo deixo a foto tirada após a entrevista! Para acederem à entrevista publicada no jornal Miraonline basta clicarem aqui.



Por Joana Veríssimo e Cátia Barbosa



Até logo, Diamond!

Obrigada pela visita!
Volta Sempre :)